quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Comentários de uma aluna



Navegante de eterno saber, vou singrando os mares do conhecimento. Ora por águas revoltas de dúvidas e incertezas, ora em profundas águas reflexivas. E na descoberta ou tentativas de tudo apreender e compreender, percebo afastando-me cada vez mais das sombrias tempestades da ignorância, e, como marujo tenaz, buscando o porto da História e seus tesouros.
Calo-me perplexa ante a magnitude dos pensares e saberes construídos. Os eventos de uma longa duração ou os documentos deixados por vozes que não se calaram. São tesouros incalculáveis. E perplexa me quedo diante de magnífica riqueza de pensares e saberes construídos pela experiência do próprio Homem.
Diante de tanta resplandecência de idéias e teorias, sistemas e regimes, estruturas e relações sinto-me pequena e paradoxalmente sinto-me gigante quando percebo o quanto já mudei, o quanto cresci através das micro-histórias.
Caro Mestre, ouvir-te falar cada semana deste período, foi muito mais do que colher informações e dados. Foi sonhar de olhos abertos para um mundo de idéias novas, de sentidos novos... E como num passe-de-mágica, viajei nas caravelas da modernidade. Meus colegas de turma tornaram-se, de repente, Bonifácios, Vianas, Prados, Freyres... E quantas vezes adormeci com os D. Pedros, os tenentistas, os Vanguardistas e tantos outros eu não saberia dizer. E quantas vezes foram que acordei com a França, com a Inglaterra, com a Espanha e Portugal na cabeça? Incalculável.
Mas uma coisa é certa. Você foi o responsável, sim, foi você quem fomentou em mim a desconstrução de valores e de uma visão de mundo que até pouco tempo acreditava ser a ideal.
Agora vivo em crise. Não tenho mais sossego. Minha mente já não descansa em paz, pois quando penso que cheguei a uma conclusão de alguma coisa, você apresenta novas possibilidades e minhas idéias se desarrumam novamente.
Termino o ano cansada, com a vista mais gasta, com os dedos mais calosos pelas resenhas e fichamentos, com a coluna mais torta pelas horas encurvada sobre a mesa de leitura e com mais cabelos brancos por conta das P1’s e P2’s. Mas, apesar desses inconvenientes, parabéns! Você fez de mim uma viciada em História!

BOM NATAL! BOAS FESTAS!

Denise Quintanilha
6º período - UVA CABO FRIO
Curso de História

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Bancas de Monografia - de 8 a 10 de dezembro 2009






NOME TEMA DO TRABALHO ORIENTADOR BANCA 1 BANCA 2 DATA

Ailton de Azevedo Moraes Estados Unidos : a Caminho da Crise /Fabio Frizzo/ Vanessa Angela Maia - 09/12/2009
Amarildo Navaro A Imigração Italiana e sua contribuição cultural e empreeendedora /Paulo Roberto/ João Gilberto/ Guilherme Motta - 10/12/2009
Ana Flavia da Silva S. Marques São Paulo - De perseguidor a perseguido, propagou o Cristianismo /Fabio Frizzo/ Paulo Roberto /Guilherme Motta - 08/12/2009
Ana Maria da Silva Santos Os motivos que trouxeram a Familia Real ao Brasil /Paulo Roberto/ Angela Maia/ Guilherme Motta - 08/12/2009
Arthur Valente da Silva Formação do Estado Judeu /Fabio Frizzo /Vanessa/ João Henrique - 09/12/2009
Barbara Natasha B. Dawes Historia e Memoria - Analise de biografias /João Gilberto/ Fabio Frizzo/ Angela Maia - 08/12/2009
Bruna de Castro Fernandes A invasão Francesa de Rene Duguay Troiin ao Rio de Janeiro no ano de 19711 /Angela Maia /Guilherme Motta /João Henrique - 09/12/2009
Carlos Eduardo O. Pereira Guerra Civil Espanhola /Fabio Frizzo /João Henrique/ Vanessa - 09/12/2009
Carulina Mendonça F. Correa Historia Oral local de Arraial de Cabo /João Henrique/ Vanessa/ Guilherme Motta - 09/12/2009
Daniel Lellis Siqueira Conquista do Mexico /Angela Maia /Vanessa /Guilherme Motta - 09/12/2009
Diego Sebastião Azevedo de Oliveira Analise das Missões Jesuítas na Colonização dos Sete Povos /Angela Maia/ Paulo Roberto/ João Henrique - 09/12/2009
Ebia da Silva Braga A Vinda da Familia Real: Administraçaõ e Cultura no período Joanino /João Henrique /Guilherme Motta/ Vanessa - 09/12/2009
Fabiana Carvalho da Silva Bestializados ou Bilontras: Reflexões sobre o povo brasileiro /João Gilberto /Angela Maia /Paulo Roberto - 08/12/2009
Jeferson Nascimento Viana Participação dos Escravos na Guerra no Paraguai /Paulo Roberto/ Guilherme Motta /João Gilberto - 10/12/2009
Jefferson de Castro Moura Missões Jesuítas no Sul do Brasil /Angela Maia /João Henrique /Fabio Frizzo - 09/12/2009
Jefferson Neves dos Santos Os descaminhos da liberdade: Escravidão urbana, reinvenções e resistência no Rio de Janeiro imperial/ Paulo Roberto /Guilherme Motta João Gilberto - 10/12/2009
Joselaine Cavalcanti de Souza Transição do Trabalho Escravo para o Trabalho Livre Paulo Roberto/ João Henrique/ Angela Maia - 09/12/2009
Josimar Veiga de Oliveira Alcalis /Guilherme Motta /Fabio Frizzo /João Gilberto - 08/12/2009
Juliana Furriel Beranger Revolução Inglesa /Paulo Roberto/ Vanessa /Angela Maia - 09/12/2009
Jusciene Pena Reis O Negro na pós-abolição (1870-1930) Teoria Cientifica do bronqueamento /Paulo Roberto/ Fabio Frizzo/ João Gilberto - 09/12/2009
Leticia da Costa Silva O Leitor e o Nazismo /João Gilberto /Angela Maia/ Paulo Roberto - 08/12/2009
Lícia Cristina Ferreira P. M. Amaral Maria Antonieta e sua epóca /Angela Maia/ Vanessa /Fabio Frizzo - 09/12/2009
Marcio Jonathan R. Valadao Transferência da Corte Real Portuguesa para Colônia: Brasil /Guilherme Motta/ João Gilberto/ Vanessa - 09/12/2009
Maria Aparecida dos Santos Gomes sem o tema /João Gilberto Paulo Roberto Guilherme Motta 10/12/2009
Marildo Gomes Barreira Influência da Lei: Bill Arbedeen na Abolição da Escravidão Brasileira /Guilherme Motta/ Paulo Roberto /João Gilberto - 10/12/2009
Marqueson da C. Guimaraes Abolição da Escravidão /Paulo Roberto/ Fabio Frizzo/ Angela Maia - 08/12/2009
Matilde Maria Silva Chaves Chegada da Igreja Metodista ao Brasil /Paulo Roberto /João Gilberto/ Fabio Frizzo 08/12/2009
Milton Roberto P. Souza Filho Ditaduras Esportivas: O uso Politico do Esporte /Guilherme Motta/ Fabio Frizzo /Paulo Roberto - 08/12/2009
Monique Eveling dos Reis Mulheres do Século XIX /Angela Maia /Paulo Roberto/João Gilberto - 08/12/2009
Patricia do Nascimento Fonseca Choque entre Palestinos e Israelenses/ Angela Maia Guilherme Motta/ Paulo Roberto - 08/12/2009
Rafaela Rocha de Oliveira Barão do Rio Branco - Ciclo da Borracha /Guilherme Motta/ Paulo Roberto /Fabio Frizzo - 08/12/2009
Ricardo Andrade Coitinho Filho Inquisição no Brasil-Perseguição aos Sadomitas /Angela Maia /Paulo Roberto /João Gilberto - 08/12/2009
Rosana Macedo Santos Canudos: Uma Revisão Historiográficas /João Gilberto /Paulo Roberto/ Guilherme Motta - 10/12/2009
Sandro Pereira Nunes Militares: 1889-1930, Proteger o Estado ou apossar-se dele os novos Atores Politicos /Paulo Roberto/ João Gilberto/ Guilherme Motta - 10/12/2009
Soraya da Costa Coelho "Terreiro de Branco, as representações socias da religião umbanda" /João Gilberto/ Guilherme Motta /Paulo Roberto - 10/12/2009
Ulisses Ferreira da S. Filho Tereza de Benguela /Paulo Roberto/ Guilherme Motta /João Gilberto - 10/12/2009

Novos textos do VII Congresso de História da Região dos Lagos


Acompanhem aqui no Blog os textos completos do VII Congresso de História da Região dos Lagos.

Um abraço

Guilherme Guaral

VII Congresso de História da Região dos Lagos As Cores da História: Historiografia, Religiosidade e Manifestações Culturais

IV

A pesquisa histórica em “Jongos, Calangos e Folias”
Camila Marques (UFF – Brasil)
Camila Mendonça (UFF – Brasil)

Resumo
O presente trabalho procura relatar a experiência da pesquisa histórica realizada por trás do filme Jongos Calangos e Folias. Destacamos a crescente visibilidade de tais manifestações na sociedade brasileira e, consequentemente, a necessidade de mapear algumas dessas expressões de matriz africana existentes no Estado do Rio de Janeiro. O amplo esforço de pesquisa – que procuramos detalhar aqui – teve como objetivo buscar a historicidade das expressões em foco e dos grupos que a compõem.
No atual contexto de valorização da cultura e da história da África em nosso país, em que a lei 11.645 veio para coroar uma demanda de movimentos sociais ao longo do século XX, chamamos atenção para o papel das universidades na produção de conhecimento sobre uma história que começa a ser contada. Referimo-nos à diversas comunidades negras detentoras de um vasto patrimonial cultural que procuramos iluminar através do filme.
Para produzir Jongos, Calangos e Folias a equipe construiu um roteiro que remonta as experiências de migrações da última geração de africanos escravizados, trazidos pelo tráfico ilegal, e seus descendentes. Conta as suas possíveis caminhadas pelo estado do Rio de Janeiro, desde o desembarque até o pós-abolição.
Iremos analisar também as semelhanças existentes entre as três práticas culturais abordadas que permitiram incluí-las em um mesmo filme, o verso, a poesia, o desafio e seus protagonistas. Por fim, concluímos explicitando os resultados e as repercussões, dentro e fora das comunidades, obtidas ao longo da vida de Jongos, Calangos e Folias.

Introdução

O filme “Jongos, Calangos e Folias: música negra, memória e poesia”, sob a direção geral de Hebe Mattos e Martha Abreu, é um documentário historiográfico realizado pela Universidade Federal Fluminense, através do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF) e do Núcleo de Pesquisa em História Cultural (NUPEHC/UFF), com o apoio do Edital Petrobrás Cultural/2005. Esta obra, entretanto, entendida também como um material áudio-visual para fins didáticos, foi apenas um dos resultados obtidos a partir de um projeto de pesquisa maior, desenvolvido entre os anos de 2006 e 2007.
O referido projeto – que empresta seu nome ao título do filme – teve como objetivo principal “inventariar e registrar expressões musicais negras no Estado do Rio de Janeiro, especialmente no Vale do Paraíba e litoral sul fluminense, bem como a memória e a história das comunidades negras protagonistas das manifestações culturais em foco” . Ao falar em comunidades negras estamos nos referindo a inúmeras comunidades que originaram-se dos últimos africanos aportados no Brasil até, pelo menos, meados do século XIX – período final de ocorrência do tráfico clandestino de escravos com o continente africano.
Os jongos, calangos e folias que nossos entrevistados vivenciam certamente não são os mesmos do tempo do cativeiro, tendo em vista algumas transformações e adaptações que sofreram para que continuassem a existir no presente. No jongo, por exemplo, a presença de crianças nas rodas era algo proibido durante o século XIX, ao passo que hoje elas são fundamentais para levar a prática à diante.
O mapeamento de tais comunidades e suas manifestações fez-se necessário em decorrência da crescente presença desses grupos nos meios de comunicação, presença esta que, paulatinamente, se posicionava no sentido de afirmar suas tradições de matriz africana e buscar o reconhecimento e a valorização das mesmas. O mote inicial da pesquisa seguia, então, no intuito de recuperar a historicidade dessas expressões e, conseqüentemente, trazer à tona um vasto patrimônio imaterial das comunidades afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro.
Hoje, com a conclusão de toda a pesquisa e com os frutos que surgiram dela , podemos ver que para além de dar apoio e visibilidade às manifestações culturais negras que vem conquistando seu espaço na sociedade, nosso trabalho contribui para levantar a questão do silenciamento a que essas práticas foram submetidas pela história oficial. Também podemos perceber, a partir da trajetória de diversos jongueiros e foliões de reis habitantes das áreas rurais, os rumos da população afrodescendente ao longo do século XX no Brasil – uma outra história construída com base nas palavras dos próprios protagonistas, marcada pela vontade incessante de manter suas tradições e a terra adquirida por seus ancestrais.
Não podemos deixar de colocar aqui a importância deste projeto no âmbito da implementação da lei 11.645 de 2008 e do papel fundamental das universidades na produção de conhecimento voltado para atender as questões pautadas pela sociedade. A citada lei tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos ou privados. Ela decorre, entretanto, das reivindicações de setores sociais, principalmente do Movimento Negro, diante da situação desigual que se encontra a maior parte dos negros no Brasil contemporâneo. Aprofundar o conhecimento das manifestações culturais afrodescendentes, isto é, buscar sua historicidade, significa reconhecer a contribuição dessas práticas à formação social brasileira. Ao mesmo tempo, esse reconhecimento ajuda no combate ao preconceito racial e no desmascaramento do processo de exclusão social sofrido pela população negra.

O projeto

Todas as etapas de nossa pesquisa encontram-se registradas no site do projeto e os resultados estão disponíveis para a consulta de qualquer pessoa.
Começamos por um amplo levantamento bibliográfico regional na busca por indícios das manifestações em foco e, também, um levantamento dos principais autores que discorreram sobre o tema de maneira geral. As regiões pesquisadas foram: litorais sul e norte, vale do Paraíba, noroeste e baixada fluminense. As leituras foram divididas entre os membros da equipe – na época, bolsistas de iniciação científica – e organizadas em fichas temáticas padronizadas, onde foram transcritas as partes mais relevantes de cada obra. Veja um exemplo:

Autor: Alceu Maynard Araújo
Título: Jongo
Indicação bibliográfica: Revista do Arquivo Municipal, Ano XVI, Volume CXXVIII, outubro de 1949.
Localização: Museu do Folclore
Informação sobre a edição:
Informação sobre o autor:
Data da 1ª edição:
Periódico

Memória da África:/Jongo “O Jongo é uma dança de origem africana. Um dos mais velhos jongueiros de Cunha, narrou-nos que seu pai era africano, sabia o jongo e que o dançava em Angola. Afirmou também, que primeiramente, “só os negros é que dançavam, porém hoje alguns brancos aprenderam e dançam.” (p.45)
Período da descrição: final da década de 1940
Região descrita: São Paulo (Cunha, Taubaté, São Luis do Paraitinga)
Informante: velho jongueiro de Cunha;
Comentários: o restante do artigo já foi fichado, pois publicado em outra ocasião.


Após o levantamento bibliográfico partimos para uma investigação junto às comunidades em busca das memórias do tempo do cativeiro e da genealogia das famílias de jongueiros, calangueiros e foliões – herdeiras de um patrimônio cultural cultivado de geração em geração. Os relatos de nossas viagens às regiões visitadas também podem ser encontrados no site do projeto. São entrevistas, registros de festas e filmagens de lugares de memória, ou seja, elementos que possuem um sentido específico para os grupos e lhes conferem uma identidade coletiva.
A terceira etapa constituiu-se no tratamento do material produzido, principalmente as gravações realizadas durante as viagens. Elaboramos fichas de decupagem cuja finalidade era detalhar o conteúdo de cada registro áudio-visual obtido. Neste mesmo momento construímos o site do projeto para que, na medida em que os registros estivessem organizados e catalogados, passassem a ser disponibilizados à consultas via internet.
A última etapa deste longo trabalho foi a elaboração do filme, processo que detalharemos um pouco mais a seguir.

Roteiro
Quando nos reunimos para pensar sobre o roteiro do filme decidimos optar por uma perspectiva histórica. Nesse sentido, caminhamos pela história das migrações da última geração de africanos que chegaram no Rio de Janeiro
A construção do roteiro explica a escolha dos locais retratados no filme. O filme começa abordando as comunidades do litoral em duas partes do mapa do estado do Rio de Janeiro: o Bracuí, no município de Angra dos Reis, e a Rasa, no município de Búzios, apesar de estarem localizadas em pontos opostos no mapa do estado, essas duas regiões possuem histórias em comum.
Tanto no Bracuí, quanto na Rasa, encontramos relatos de desembarques ilegais de escravos, após a lei que declara o fim do comércio de escravos no Brasil, em 1830. Os entrevistados nesses locais atribuem ao desembarque clandestino de africanos escravizados a presença de comunidades negras nessas partes do litoral fluminense. A permanência das pessoas nesse local, mesmo com a necessidade de cativos nas fazendas de café do interior, é atribuída a necessidade de abastecimento de mão-de-obra nas atividades locais.
Em Angra dos Reis no século XIX, temos plantações para o abastecimento do mercado interno, entre os gêneros está o Café, na organização do porto e na produção de água-ardente. Em Cabo Frio , além de ajudar no desembarque, muitos ficavam nas fazendas da região, algumas dedicadas a plantação de cana de açúcar, entre elas a Fazenda Campos Novos.
A permanência dos africanos e dos seus descendentes nestes locais do litoral permitiu a formação de uma cultura negra, expressada no filme pelos Jongos, Calangos e Folias.
No Bracuí encontramos o Jongo praticado por velhos e crianças. O Jongo esteve inativo por alguns anos, mas após um processo de resgate ele voltou a fazer parte do cotidiano, e tornou-se símbolo da Comunidade Quilombola do Bracuí. A presença das crianças no Jongo é resultado de um trabalho para que este não deixe de ser praticado pelos membros da comunidade . Já o Calango e Folia, encontramos em muitas histórias contadas pelos entrevistados, que contam como era e o que acontecia na Folia e no Calango. No entanto, essas práticas não têm tanto espaço como o Jongo. A Folia está sendo retomada, mas o baile de Calango, ainda não conseguimos ter notícias sobre a sua presença atualmente, só nas memórias dos mais velhos.
Na Rasa, nenhuma dessas manifestações é praticada atualmente. Elas, porém, estão bastante vivas nas memórias dos entrevistados. Os que as presenciaram cantam os versos de calango, contam as histórias que ocorriam nas folias e nos jongos. O líder da Comunidade da Rasa, o Pastor Luiz, afirma que na sua igreja, quando ele era pastor cantavam hinos religiosos em ritmo de Jongo .
Sejam na memória ou na prática, os Jongos, Calangos e as Folias estão presentes nessas comunidades do litoral do Rio de Janeiro.
Mas, é provável que o leitor esteja perguntando-se para onde foram os africanos que chegaram a esses portos e não permaneceram no litoral? No interior do estado do Rio, as plantações de café estavam a todo vapor. O produto que estava em primeiro lugar nas exportações brasileiras da época exigia um grande contingente de cativos, para realizar as etapas de sua produção. A produção cafeeira dominava o Vale do Paraíba fluminense, de norte a sul. E os Barões do Café dessas regiões tornaram-se os maiores proprietários escravistas do período. A cafeicultura, então, era o motivo para captação de tantos escravos para essas regiões.
Os escravos, desembarcados ilegalmente no litoral, eram destinados às fazendas de café do interior, principalmente do Vale do Paraíba. Mais tarde a cafeicultura vai expandir para o Oeste paulista passando a atrair muitos escravos para essa região .
Os africanos que chegavam no Bracuí , e em outros portos próximo, subiam a serra do Mar em direção ao Vale do Paraíba sul. Os que desembarcavam na Rasa, iam para o Vale do Paraíba no noroeste fluminense. Era uma caminhada em direção ao interior, onde estavam as fazendas de café.
Com grande concentração de escravos, essas regiões (Vale do Paraíba sul e norte) foram palcos de muitas práticas culturais negras, entre elas estão os Jongos Calangos e Folias. Para a produção do filme, destacamos as comunidades de Barra do Piraí e do Quilombo São José da Serra, no sul; e Duas Barras, no norte.
Nas comunidades do sul há uma forte presença das três manifestações. Jongos, Calangos e Folias estão espalhados por toda parte. No norte, especificamente, em Duas Barras, o Jongo está apenas na memória. Já o Calango e a Folia, são práticas muito fortes. A folia possui um museu próprio e encontros para reunir folias de vários locais. Fazem desafio de palhaço e desfiles de folias. O Calango é muito representado pelas figuras de grandes calanguistas, sendo o principal deles o senhor Abel, descrito pelo próprio e por seus companheiros de baile, como o maior calanguista da região.
No pós-abolição, parte da população negra (muitos ex-escravos) vão enfrentar uma nova migração, agora vão seguir a linha do trem e chegar até a Baixada Fluminense. Esses indivíduos vêm em busca de novas relações de trabalho, e trazem consigo as suas práticas culturais.
Na Baixada Fluminense, encontramos memórias de Jongos, que não é mais praticado na região. Atribui-se esse abandono do jongo ao novo espaço ocupado por seus sujeitos, uma vez que é comum referirem-se a reclamação dos vizinhos, que diferentemente do interior estavam mais próximos.
As folias, no entanto, são motivos para grandes encontros e festas. Foi impressionante o grande número de Folias de Reis que encontramos na Baixada Fluminense.
Após contar, por meio dos Jongos, Calangos e Folias a história da caminhada de parte da população negra, acompanhando os seus ascendentes desde o desembarque nos portos clandestinos, até as migrações no pós-abolição, destinamos o final do filme para explicitar o uso dessas práticas culturais como bandeira de luta política. Essas práticas são o veículo acessível a esses indivíduos de fazerem política e contarem as suas histórias. Através de seus versos, expressam a sua concepção de mundo, contam como vêm a sua história e a sua condição, lutam contra o racismo e reivindicam direitos.

O Intercâmbio entre Jongos, Calangos e Folias

A pesquisa bibliográfica nos mostrava algumas semelhanças entre Jongos, Calangos e Folias. Uma delas é ser praticada em sua maioria por pessoas de cor, e serem declaradas elementos de uma cultura negra.
Outra semelhança é presença dos versos, que aparecem tanto nos Jongos, como nos Calangos e nas Folias. Tais versos formam uma poesia negra assumida no próprio subtítulo do filme. Esta poesia é baseada na oralidade, que se configura como o meio de expressão acessível a essas pessoas. Essa poesia é a forma encontrada de expressar suas idéias, e fazer política, de maneira alternativa.
A presença do desafio é mais uma semelhança entre os Jongos, Calangos e Folias. Na Folia os palhaços quando se encontram travam desafios por meio de versos. No Jongo, os pontos lançados são para desafiar outra pessoa , quando colocados na roda esperam uma resposta. O Calango é cantando em desafio entre dois cantadores, que utilizam suas trovas para provocar e vencer o seu adversário.
Ao longo da pesquisa, no entanto, descobrimos outra similaridade que não havíamos encontrado nas referências bibliográficas. Os mesmos indivíduos que participavam das rodas de Jongo, lançavam desafios nos bailes de Calango, e poderiam ser membros de Folia de Reis. Essa interseção encontra-se nos próprios praticantes de Jongos, Calangos e Folias.
Muitos contam que enquanto o Jongo acontecia no terreiro, dentro de casa estavam os bailes de Calango para brincar e namorar, e em dezembro, começava a época da Folia de Reis, que é religião e devoção.
Esse intercâmbio também pode acontecer por meios de versos que são cantados tanto no jongo como no calango, como é mostrado no filme com o seguinte verso: “minha mãe é uma sereia /mora no fundo do mar/ eu sou filho dela (ai meu Deus do céu) / moro no mesmo lugar. Cantado por um calanguista e uma jongueira.
Essas três manifestações também são familiares, ou seja, são práticas realizadas no interior da família. As histórias sobre o aprendizado remetem a pais, avós e tios.
Percebemos que por meio de vários elementos Jongos, Calangos e Folias estão relacionados.

Os resultados e repercussões do filme

Um dos objetivos do filme era ser um instrumento para levar às escolas as práticas culturais negras, fazendo valer a lei 11645 de 2008. Temos recebido notícias da utilização do filme para esse fim, inclusive, em alguns casos com debates com membros da equipe . No uso em sala de aula o filme conta uma história não oficial, que não aparece em livros didáticos, mas que faz parte da história do Brasil.
O filme também é uma forma de mostrar um pouco da cultura negra e combater os preconceitos que essa cultura sofre. Nesse sentido, ele é utilizado como um meio de valorizar as práticas culturais dos negros.
O filme tem contribuído para alertar no meio acadêmico para existência de outras versões da história da população negra no país. Essa parcela da população é posta como protagonista da sua própria história. O filme transforma-se assim como uma forma de valorização do negro em nossa sociedade.
Para as comunidades “Jongos, Calangos e Folias” tem sido usado como um meio de valorizar as suas práticas e como um símbolo de reconhecimento da sociedade civil da sua importância.
Tais práticas culturais têm sido utilizadas como forma de afirmação política. Muitos indivíduos e comunidades estiveram esquecidos, deixados à margem da sociedade. Através de seus Jongos, Calangos e Folias ganharam visibilidades, dão entrevistas, são considerados partes de uma nação e conseguem medidas governamentais que lhes beneficiam.
O filme “Jongos, Calangos e Folias” vem sendo usado para reparar anos de esquecimento e silenciamento que a população negra sofre em relação a sua cor, a sua cultura e a sua história.

Nota sobre as Autoras:
Camila Marques
Pesquisadora do projeto “Jongos, Calangos e Folias”. Atualmente é mestranda do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, com a pesquisa “Terra e trabalho na crise do escravismo: a formação do campesinato negro em Angra dos Reis 1850-1905” e pesquisadora do projeto “Becos e memórias, ladeiras e histórias” desenvolvido pelo SESC em parceria com a ONG Bem TV.

Camila Mendonça
Pesquisadora do projeto “Jongos, Calangos e Folias”. Atualmente é mestranda do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, com a pesquisa “Levanta negro, cativeiro se acabou”: As Comemorações pela Abolição na cidade do Rio de Janeiro (1888 – 1898) e professora de História do Colégio Universitário Geral Reis/ UFF, onde vem desenvolvendo um projeto sobre o ensino de História da África e dos negros no Brasil.


Bibliografia

ABREU, Martha. O caso do Bracuhy. IN: MATTOS, Hebe &SCHNOOR, Eduardo (org.) Regaste: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Top Books. 1995. p.165-195
LARA, Silvia H. & PACHECO, Gustavo (orgs.). Memória do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Rio de Janeiro: ed. Folha Seca; Campinas, SP: ed. Cecult, 2007.
MENDONÇA, Camila; BRASIL, Eric; MAIA, Eric; CASAZZA, Ingrid & SERVA, Matheus. Revista Cantareira: Revista Discente do Departamento de História da UFF. Volume 1 - Número 1 - Ano 2009. http://www.historia.uff.br/cantareira/novacantareira/
RIOS, Ana Lugão & MATTOS, Hebe. Memórias do Cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro: ed. Civilização Brasileira, 2005.
SLENES, Robert. Senhores e Subalternos no Oeste Paulista. IN:NOVAIS, Fernando & ALENCASTRO, Luiz Felipe. História da Vida Privada 2. Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras. 1997. p.234-300.

NOTAS:

Para ver o projeto de pesquisa na íntegra acesse: http://www.historia.uff.br/jongos
Nos relatos dos entrevistados das diversas regiões é recorrente a questão da proibição de crianças nas rodas de jongo no tempo dos mais antigos. Todas as entrevistas estão disponíveis para consulta on-line em: http://www.historia.uff.br/jongos/acervo/.
O projeto também possibilitou a ramificação da pesquisa em temas afins que estão sendo desenvolvidos atualmente no âmbito do mestrado.
http://www.historia.uff.br/jongos/
Búzios emancipou-se em 1995. Por isso ao me referir a localidade da Rasa no século XIX, localizo-a em Cabo Frio.
Entrevista feita com Delcio Bernado, líder da Comunidade Quilombola do Bracuí – Acervo Petrobrás Cultural/ LABHOI-UFF
Entrevista feita com Pastor Luiz, líder da Comunidade Quilombola do Bracuí – Acervo Petrobrás Cultural/ LABHOI-UFF
SLENES, Robert. Senhores e Subalternos no Oeste Paulista. IN:NOVAIS, Fernando & ALENCASTRO, Luiz Felipe. História da Vida Privada 2. Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras. 1997. p.234-300.
A fazenda do Bracuí era do Souza Breves utilizada com local para desembarque clandestino de escravos. Muitos era vendidos para outros donos de fazendas de café, ou permaneciam com o mesmo dono que possuía outras fazendas de café no interior, ou ainda eram vendidos para o seu irmão, que também era dono de muitas terras dominadas pelas plantações de café. Sobre a fazenda do Bracuí e a sua relação com o tráfico ver ABREU, Martha. O caso do Bracuhy. IN: MATTOS, Hebe &SCHNOOR, Eduardo (org.) Regaste: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Top Books. 1995. p.165-195
Temos notícia do Colégio Salesiano – Região oceânica e do Colégio Estadual.Embaixador Alcebíades Peçanha. em São Gonçalo.

VII Congresso de História da Região dos Lagos As Cores da História: Historiografia, Religiosidade e Manifestações Culturais

I
Carnavais de Guerra, o nacionalismo no samba
Dulce Tupy

Resumo
Elaborada no final dos anos 70 e início dos 80, a pesquisa sobre os chamados “carnavais de guerra” que virou livro em 1985 teve como objetivo demonstrar como as escolas de samba do Rio de Janeiro conquistaram espaço nos desfiles carnavalescos dos anos 30 e 40. Para serem aceitas socialmente, as escolas de samba tiveram que se enquadrar nos moldes dos enredos nacionalistas, com temática ufanista. Símbolo da resistência cultural e da afirmação da identidade do negro no Brasil, as escolas de samba percorreram um caminho sinuoso que às levou ao gigantismo que têm hoje. As bases desse crescimento foram alicerçadas nos desfiles da escola de samba Portela, no período em que o Brasil participou da II Guerra Mundial (1943, 44 e 45). A pesquisa foi feita a partir da bibliografia disponível na época (de 1978 a 1985), quando surgiram vários livros sobre música popular, escolas de samba e sambistas, motivados pela criação da Funarte (Fundação Nacional de Arte). A própria pesquisa, feita também em jornais do início do século XX e com base em depoimentos, foi possível graças a uma bolsa de estudo, conquistada pela autora, em concurso promovido pela Funarte. Com farta ilustração, o livro “Carnavais de Guerra, o nacionalismo no samba” desvendou enigmas do mundo do samba que se tornaram referência para estudos futuros e fonte de inspiração para inúmeros pesquisadores.

Palavras-chave: Escolas de samba, Nacionalismo, Carnaval, Rio de Janeiro

Há dois carnavais no Rio: o carnaval de salão e o carnaval de rua. O carnaval de salão surgiu em 1840 no Hotel Itália, onde se realizou o primeiro baile de máscaras de que se tem notícia. Também se realizaram na Praça Tiradentes outros famosos bailes de máscaras no Teatro São José. Já o carnaval de rua é resultante de várias manifestações populares portuguesas e antigos cortejos religiosos dos negros e mestiços.
Uma das origens do carnaval de rua se encontra no tradicional entrudo português, praticado pelos escravos nas ruas e nas casas pelos membros da corte e até pela família real, no Brasil Colônia. O entrudo era uma brincadeira de mal gosto que consistia em jogar água e farinha uns nos outros, ou até mijo. Mais tarde, no Brasil Império, surge o Zé Pereira, com seus bumbos de tradição lusitana, no Rio de Janeiro, marcando o carnaval de rua.
No final do século XIX, a procissão religiosa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário (negra) trazia na frente um grupo de capoeiristas e uma ala de baianas chamadas então de “taieiras”. A procissão saía no período natalino. No dia de reis, 6 de janeiro, os ternos e ranchos de origem nordestina prestavam homenagem ao Menino Jesus, mas aos poucos foram perdendo o caráter religioso e se tornaram manifestações populares, com traços carnavalescos.
Também as tradicionais cerimônias de coroação do Rei do Congo, ocorridas no Brasil Colonial, durante as festas em homenagem a São Benedito (negro), aos poucos foram se transformando nas congadas e reisados que tanto influenciaram as manifestações carnavalescas e sobreviveram ao lado dos populares cordões. Mais tarde os cordões passaram a se chamar blocos (blocos de sujo, blocos de arrastão e blocos de embalo). Na origem de todas as escolas de samba sempre tem um bloco carnavalesco.
Na virada do século XIX para o século XX, havia no carnaval carioca duas grandes manifestações carnavalescas: os ranchos e as grandes sociedades, com seus desfiles de luxo. Em 1900, a população do Rio era de 600 mil habitantes, sendo 30% negros, 30% brancos e 40% mestiços! Em 1904, o prefeito Rodrigues Alves promove uma série de mudanças urbanas que transformam a cidade na moderna capital do país.
O maxixe era a música e dança adorada pela população, mas amaldiçoada pela elite, polícia e igreja. A elite frequentava clubs e praticava o rowing (regatas), o tennis, o rugby e o foot-ball. Enquanto nas gafieiras o povo dançava maxixe, nos salões afrancesados se dançava quadrilha, polca, valsa, rocambole, mazurca, varsoviana, escocesa (que veio do inglês shottish e acabou virando xote) entre outros gêneros europeus. O maxixe era a forma de dançar as músicas européias assim como o choro era a maneira de interpretar as partituras estrangeiras.
Na época, a música brasileira popular era: lundu, modinha, cançoneta, tango e maxixe. Os compositores eram: Chiquinha Gonzaga, Patápio Silva, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth e outros instrumentistas, conhecidos como chorões. Os cantores mais populares eram: Baiano, Cadete, Eduardo das Neves e outros. Estava na moda fazer serenatas, piano na sala de visitas e saraus de poesia, onde despontava o poeta Catulo da Paixão Cearense, autor da célebre Luar do Sertão.
A imprensa começa a crescer e surgem as primeiras revistas ilustradas com fotografias disputando espaço entre os blocos de texto! A revista semanal Rua do Ouvidor critica o Zé Pereira, grupo carnavalesco que desfilava nas ruas fazendo barulho com seus adufos, tambores, bumbos, triângulos, panelas, pratos, facas, etc... Tanto o entruto como o Zé Pereira entram em desuso no início do século XX.
As chamadas Grandes Sociedades eram a nota chic no carnaval carioca. Era a manifestação carnavalesca da burguesia liberal, desde meados do século XIX, quando participavam das campanhas cívicas como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República (1988 e 1989). Elas traziam para as ruas bandas de música e carros alegóricos. Mas não só de desfile luxuoso vivia o carnaval na época.
Os ranchos, com origem nos autos pastoris de natal, trazidos pelos migrantes nordestinos que chegavam ao Rio depois da Guerra do Paraguai, desfilavam acompanhados de orquestras de sopro e cordas, com melodias de ritmo lento (marchas rancho). Apresentavam também temas - que deram origem aos enredos - sobre a mitologia greco-romana ou lendas. Como novidade, os ranchos permitiam a participação das mulheres que eram as pastoras. Eram a manifestação carnavalesca da pequena burguesia e funcionários públicos do Distrito Federal.
Os cucumbis, grupos de origem africana e que deram origem aos antigos cordões, saíam às ruas com suas fantasias e instrumentos típicos: maracás, ganzás, omelês, cuícas, tambores, atabaques, apitos. Os cucumbis foram aos poucos incorporados no culto negro de Nossa Senhora do Rosário e desfilavam cantando músicas com refrões em banto e em português. Eram o divertimento do povão, principalmente do povo afro-brasileiro, composto em sua maioria de ex-escravos.
Na tradicional Festa da Penha, no subúrbio carioca, havia samba, batuque e capoeira. Nas casas das “tias” baianas tocava-se choro na sala de visitas e praticava-se o samba, o batuque e o candomblé no terreiro (quintal). Foi numa dessas casas, na Praça Onze, que surgiu mais tarde o primeiro samba de sucesso: o Pelo Telefone.
Em 1914, a primeira dama do país, a caricaturista Nair de Teffé, incluiu no programa de uma recepção palaciana uma apresentação do popular Corta Jaca, música da maestrina Chiquinha Gonzaga, no ritmo do maxixe. O episódio virou escândalo nos jornais e o ranzinza Rui Barbosa disse então que era um atentado à moral pública. Em 1915, Afonso Arinos realiza um ciclo de conferências sobre temas folclóricos em São Paulo, valorizando a cultura popular brasileira. No Rio, os músicos negros Pixinguinha e Sinhô são as grandes atrações nas festas mais animadas da cidade.
Em 1916, samba era a música popular temperada no folclore branco, índio, negro e mestiço do Brasil Colônia. Oriundo da fofa portuguesa e do lundu africano, ancestral do maxixe, o samba era cultuado na casa da Tia Ciata, freqüentada por João da Mata, mestre Germano, Hilário Jovino, Sinhô e Donga, entre outros bambas. A baiana Tia Ciata era casada com o médico negro João Batista da Silva que foi chefe de gabinete do chefe de polícia do Rio. Tia Ciata era ababalaô-mirim, do candomblé, e reunia a em sua casa a nata do samba. Expressão musical de um grupo marginalizado o samba já era um instrumento efetivo de luta pela afirmação da etnia negra na vida urbana brasileira. Porém, somente entre 1930 e 1940 o samba vai se tornar o gênero musical mais popular do Brasil.
Um dos sambas coletivos surgidos numa roda de samba na casa de Tia Ciata foi registrado por Donga como sendo de sua autoria. A partir daí nunca mais o samba foi o mesmo. Primeiro, porque um dos maiores compositores da época, o pianeiro Sinhô, passou a acusar Donga de ter registrado como seu uma composição coletiva. A polêmica ganhou a cidade a acabou projetando o samba Pelo Telefone nacionalmente.
Marco na história da MPB (Música Popular Brasileira) o Pelo Telefone, de Donga, gravado na Casa Edison, com a Banda Odeon, foi o grande sucesso do carnaval de 1917, projetando uma imagem positiva do samba. No mesmo ano o Pelo Telefone seria gravado também pelo popular Baiano e coro, divulgando ainda mais o primeiro samba de sucesso em todo o país. O Pelo Telefone não foi o primeiro samba gravado, mas foi o que se tornou uma referência, um símbolo, devido a sua enorme repercussão. Em 1913 já havia sido gravado o samba Em casa de baiana e, em 1914, A Viola está magoada. Mas ambos ficaram restritos a um público pequeno.
Com o sucesso do Pelo Telefone houve uma mudança na imagem do sambista que passou a ser considerado artista. No século XIX, os sambistas eram cercados pela polícia em suas próprias residências, eram levados para o distrito e tinham seus instrumentos confiscados. A partir do início do século XX, os sambistas passam a ser tolerados. Mas na Festa da Penha ainda era proibido o uso de pandeiros! O Pelo Telefone foi responsável também pela fixação do gênero musical – o samba – como música de carnaval. E representou o degrau por onde o negro subiu até alcançar o sucesso definitivo, através das escolas de samba, das rádios e da música popular.
Mas até chegar às rádios, nos anos 30, o negro teve que deixar sua condição de africano, no Brasil Colonial, para se transformar em escravo e de escravo em trabalhador livre, depois da Abolição da Escravatura. De mão de obra o negro se transformou em força de trabalho, ao se transferir do campo para a cidade. Para o negro, a cidade era o espaço da liberdade, para onde iam os escravos fujões e os libertos em geral. Portanto, a primeira e segunda geração de negros livres eram na verdade ex-escravos.
Assim, os negros não foram integrados à cidade imediatamente, após a Abolição, sendo condicionados pelos fatores econômicos e pela herança cultural da escravidão. Preteridos pelos imigrantes, passaram a constituir um volumoso contingente de desocupados. Porém, junto com os negros, vinha a cultura, a tradição e a religiosidade negras, onde predominava o ritmo. O ritmo, na música ocidental, sobrepõe-se à melodia e à harmonia, no século XX, por influência da cultura africana, advinda do Continente Africano, no período colonial. E, da mesma forma que o jazz surgiu nos Estados Unidos, surge na mesma época no Brasil o samba, no contexto da urbanização da sociedade brasileira. Agora, em vez da sertaneja Luar do Sertão o sucesso é o samba Pelo Telefone, ressaltando um aparelho de comunicação, o telefone, que se tornou símbolo da modernidade.
No período entre as duas grandes guerras mundiais, floresce o nacionalismo. No Brasil, a Semana de Arte Moderna, em 1922, coincide com o aparecimento do rádio, inaugurado de forma experimental durante as Comemorações do Centenário da Independência. No ano seguinte, em 7 de setembro de 1923, o rádio começa a ser transmitido comercialmente, mas com caráter exclusivamente educativo. Surgem novas gravadoras e novos artistas.
Em 1928, é fundada a escola de samba Deixa Falar, no bairro do Estácio, perto do Instituto de Educação, que forma as professoras da cidade. A escola desfilou entre as estações de trem da Central do Brasil e da Leopoldina. Mas em 1932, a pioneira Deixa Falar se transforma em rancho, talvez porque nesta condição tivesse acesso a uma pequena subvenção da Prefeitura, que as escolas de samba não tinham... A partir de 1930, vários blocos passam a se chamar escolas de samba. A primeira escola a apresentar enredo foi a Portela, em 1931: Sua majestade o samba. A alegoria era uma barrica.
Embora o desfile das escolas de samba ainda fossem ignorados pelo grande público, o samba como gênero musical estava em ascensão. Em 1929, foi feita a primeira gravação em disco, com acompanhamento de percussão; uma típica batucada de escola de samba. A música foi o samba Na Pavuna, gravado por Almirante e o Bando dos Tangarás. No rótulo do disco o gênero musical é classificado como “choro de rua”.
Os enredos nas escolas de samba nasceram sob a égide do nacionalismo. Porém, os enredos nacionalistas surgiram de fato nos ranchos, como Os Destemidos que apresentaram o enredo Pela grandeza da Pátria e o Ameno Resedá que apresentou o enredo Hino Nacional. Também a escola de samba Deixa Falar, em 1931, fez um enredo sobre a Revolução de 30: A Primavera e a Revolução. Mas ainda sem sintonia com o nacionalismo e mais voltada para si mesma e seus próprios valores, em 1932, a Portela sai com o enredo Carnaval Moderno, enaltecendo o valor do sambista.
Nas rádios, o samba substituira o maxixe. Na indústria fonográfica, o processo mecânico foi substituído pelo elétrico, agilizando as gravações e proporcionando o surgimento de grandes ídolos como a cantora Carmem Miranda. Em 1933, o desfile das escolas de samba entrou pela primeira vez no Calendário Turístico do Touring Club e Prefeitura do Distrito Federal. As escolas de samba, então, recebem pequenos subsídios da Prefeitura para desfilar.
Neste ano, dois quesitos foram obrigatórios nos desfiles das escolas de samba: a ala das baianas e a proibição do uso dos instrumentos de sopro. Os enredos refletiam o próprio universo do samba ou exploravam a temática folclórica. Neste sentido, eram uma auto-afirmação da própria cultura negra. O primeiro samba-enredo teria surgido na Mangueira, em 1933; era o Homenagem, de Carlos Cachaça. Nesta época, os sambas para os desfiles tinham uma primeira parte e improvisos, uma espécie de partido-alto. Muitas vezes a mesma escola apresentava mais de um samba no desfile.
Em 1935, data do primeiro desfile oficial das escolas de samba, promovido pela Prefeitura e pelo jornal A Nação, a Portela (que havia mudado de nome, pois antes se chamava bloco Vai como pode), desfila com o samba Guanabara, de Paulo da Portela. Em 1936, a Unidos da Tijuca desfila com o samba Natureza bela do meu Brasil. Este foi o primeiro samba-enredo que tocou nas rádios, 10 anos depois de ser lançado no desfile, quando foi gravado pelo cantor Gilberto Alves e Orquestra Fon-Fon, em 1946.
Até então, praticamente não haviam surgido os enredos nacionalistas nas escolas de samba. A moda dos enredos nacionalistas havia sido lançada pelo escritor Coelho Neto que, em 1923, em crônica publicada no Jornal do Brasil, deu a sugestão para os compositores. Em outra crônica, Coelho Neto dizia: “o Povo aprenderá alegremente através da poesia, de suas lendas, dos episódios de sua história e feitos de seus heróis”. O próprio escritor sugeriu em 1922 a criação de um poema sinfônico intitulado Brasil.
Em São Paulo, a Semana de Arte Moderna e o levante dos tenentes no Forte de Copacabana, no Rio, são outras vertentes do nacionalismo que desembocaria na Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas. Em 1937 o Estado Novo decretado pelo presidente Vargas é a expressão radical do nacionalismo político brasileiro, sob influência do nacionalismo europeu que começa a se espraiar por todo o mundo.
Um ano antes, em 1936, o programa A Hora do Brasil, instituído pelo presidente Getúlio, foi transmitido diretamente do Morro da Mangueira, no Rio, para a Alemanha, dias antes do carnaval. Em 1937, a polícia não permitiu que algumas escolas de samba desfilassem depois de meia-noite, hora em que a luz foi desligada... A Portela desfilou com o enredo O Carnaval.
Em 1938, não houve desfile, devido às chuvas. A Portela trouxe o enredo A democracia no samba. Começa a onda dos enredos nacionalistas. No Estatuto da recém-fundada UGES, União Geral das Escolas de Samba, surge a obrigatoriedade dos enredos sobre fatos e vultos da história do Brasil nos desfiles das escolas de samba. Com base nesse dispositivo, em 1939, pela primeira vez é punida uma escola de samba, por não apresentar um enredo nacionalista: a Vizinha Faladeira, do bairro da Saúde, perto do cais do porto. A escola foi desclassificada por apresentar o enredo Branca de Neve e os 7 Anões, inspirado no filme colorido de Walt Disney, que fez um sucesso estrondoso nos Estados Unidos e no Brasil.
Neste ano, a Portela foi vitoriosa com o enredo Teste ao samba, onde apresentava alegorias de mão que eram diplomas de papel e um quadro-negro onde se lia: “Prestigiar e amparar o samba, música típica e original do Brasil, é incentivar o povo brasileiro”. Agora sim, a escola de samba era uma escola mesmo, com quadro-negro, diploma e até caráter cívico, nacionalista!
Porém, em 1940, a Portela vem com o enredo Homenagem à Justiça, com um samba de Paulo da Portela. Conta a lenda que Paulo não teve tempo de ensaiar bem o samba. E, na hora do desfile, em vez do coro cantar “Salve a Justiça”, o coro cantou “Pau na Justiça”, diante dos jurados, e a escola não ganhou o primeiro lugar! Mas os portelenses aprenderam a lição. A partir de 1941, a Portela vai conquistar 7 vezes o campeonato, com enredo patrióticos, ao gosto nacionalista.
O nacionalismo estava no auge. Em 1938, Carmem Miranda é consagrada no filme Banana da Terra, vestida de baiana interpretando a música de Dorival Caymmi O que é que a baiana tem?, acompanhada do Bando da Lua. O número musical depois foi apresentado no Cassino da Urca. O filme foi a última atuação de Carmem no cinema brasileiro, antes de ir para os Estados Unidos, onde continuou sua carreira musical e cinematográfica.
Em 1939, o compositor Ary Barroso lançou o samba Aquarela do Brasil, típico samba-exaltação, que fez retumbante sucesso no Brasil e no exterior, sendo até hoje um dos sambas mais gravados e executados no mundo, só comparável ao Garota de Ipanema, de Vinícius de Morais e Tom Jobim, no estilo bossa-nova. Em 1944, em plena II Guerra Mundial, Ary Barroso fez duas viagens aos Estados Unidos, onde participou do filme Você já foi à Bahia?, de Walt Disney, o desenhista que criou a imagem dos pracinhas brasileiros na Itália: uma cobra fumando! E o papagaio Zé Carioca, como personagem emblemático do Brasil, para contracenar com o americano Pato Donald, ídolo das históricas em quadrinhos adorado por multidões de crianças, jovens e adultos.
Em 1941, a Portela lança o seu primeiro enredo nacionalista: Dez anos de glória. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo, havia promovido em 1939 um concurso para premiar os melhores shorts cinematográficos e os sketches radiofônicos sobre os 10 anos do governo Vargas a serem comemorados no ano de 1940. É possível que este fato tenha influenciado os sambistas da Portela. Neste ano a Portela ganhou o primeiro de uma série de 7 campeonatos, uma façanha jamais realizada por outra escola de samba.
Em 1942, o enredo com que desfila a Portela é: A vida do samba. O enredo destacava a origem indígena do samba e a figura típica do malandro carioca, com camisa listrada. Também homenageava a cantora Carmem Miranda que fora morar nos Estados Unidos, representado por uma alegoria com um arranha-céu. A Portela ganha o seu segundo campeonato. Em agosto de 1942, o Brasil declara guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
Em 1943, as manchetes do jornal O Globo alertam: “Não haverá carnaval para os inimigos do Brasil” (os imigrantes alemães, italianos e japoneses)... A Portela torna-se tri-campeão no desfile das escolas de samba, com o enredo Carnaval de Guerra e samba de Alvaiade, Nilson Gonçalves e Ataulfo Alves, intitulado Brasil. Em 1943, 44 e 45, os enredos das escolas de samba foram liberados pela Liga de Defesa Nacional e pela recém formada União Nacional dos Estudantes (UNE).
Em 1944, a Portela desfilou e venceu mais uma vez o campeonato com o enredo Motivos Patrióticos. Em 1945, um desfile das escolas de samba, no Estádio São Januário, do Clube de Futebol Vasco da Gama, em São Cristóvão, terminou em briga e um morto! No carnaval, foi proibida a dança do frevo nas ruas, mas foi permitida nos clubes. A Portela vence mais um campeonato, com o enredo Brasil Glorioso e samba de Jair Silva. Em abril, Getúlio Vargas decreta a anistia aos presos políticos e em maio é extinto o DIP.
No rastro do pós-guerra, o carnaval de 1946 foi o chamado Carnaval da Vitória. Era o primeiro carnaval depois do fim da guerra e com o país livre da ditadura. Esperava-se um carnaval esplendoroso, mas não foi. Pela sexta vez a Portela conquista o primeiro lugar no desfile das escolas de samba, com o enredo Alvorada do Novo Mundo, que trazia inclusive uma alegoria que representava as Nações Unidas. O samba de Boaventura foi Carnaval da Vitória.
No chamado Carnaval da Paz, em 1947, a Portela vence pela sétima vez consecutiva, tornando-se até hoje a única escola de samba a conquistar 7 campeonatos seguidos. O enredo foi Honra ao Mérito, em homenagem ao pai da aviação, Santos Dumont. O significado das 7 vitórias da Portela, de 1941 a 47, foi a consolidação de um modelo de desfile, calcado nos enredos nacionalistas, históricos e ufanistas. Este modelo iria perdurar por muito tempo, até que nos anos 60, os enredos de temática negra, no Salgueiro, representarão um novo ciclo na evolução das escolas de samba cariocas.
Porém, é preciso destacar que sambas produzidos dentro da estética do nacionalismo hoje se tornaram verdadeiros clássicos da música popular brasileira e são reconhecidos como verdadeiras obras primas, como é o caso do famoso samba-enredo Tiradentes, de Mano Décio da Viola, Penteado e Estanislau Silva, da escola de samba Império Serrano. Em 1948, o Império Serrano já havia tirado o 1º lugar no desfile com o enredo Castro Alves. Repetiu a dose, com maestria, com o enredo Exaltação a Tiradentes, em 1949. E, em 1950, conquista o tri-campeonato com Batalha Naval do Riachuelo. Em 1951, é a vez do tetra-campeonato com o enredo Sessenta e um anos de República, portando o majestoso samba de Silas de Oliveira, homenageando os presidentes do Brasil, em especial Getúlio Vargas que acabara de se reeleger, com expressiva votação popular.
Era a discípula Império Serrano seguindo os mesmos passos da Portela. Neste caminho de mão dupla, em que as escolas de samba vão sendo assimiladas socialmente, ao mesmo tempo em que vão sedimentando o caminho para a afirmação da cultura negra que representam, o carnaval passa por diversas transformações. Nos anos 60, as escolas de samba conquistam a classe média e atinge os grandes meios de comunicação. A cobrança de ingressos, a transmissão dos desfiles na TV, a construção da Passarela do Samba (Sambódromo) e a criação da Liga das Escolas de Samba dos Rio de Janeiro (Liesa), são aspectos que determinaram uma nova fase no carnaval carioca.
Hoje as escolas de samba fazem parte da indústria turística do país e o samba é um verdadeiro símbolo da nação. Portanto, agora consolidadas, as escolas de samba já não precisam mais das amarras do nacionalismo e os enredos são cada vez mais criativos, voam nas asas da imaginação. E o samba, música negra, por excelência, continua vivo como sempre, em suas mais diversas modalidades, atingindo um público cada vez maior no Brasil e no exterior, passando por gerações e gerações de brasileiros ao longo dos séculos.

Dulce Tupy – Jornalista, pesquisadora de música popular brasileira, membro da Academia de Letras Rio-Cidade Maravilhosa, editora do jornal O Saquá, de Saquarema-RJ e Diretora da Tupy Comunicações S/C Ltda. Contato: Tel. (22) 2651-7441 / 9967-4693. Av. Ministro Salgado Filho, 6661, Barra Nova, Saquarema – RJ. Email: dulcetupy@osaqua.com.br

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Artigos Completos VII Congresso de História da Região dos Lagos

Comunicações do Curso de História



Estamos postando os primeiros textos do VII Congresso de História da Região dos Lagos. Este evento aconteceu nos dias 16, 17 e 18 de novembro no Auditório Principal da Universidade Veiga de Almeida, Campus Cabo Frio. Aproveitem a leitura e façam suas observações. Aliás envie seu texto, sua sugestão, suas opiniões e façamos deste espaço um local de circulação de idéias e ideais.



Grande abraço!



Guilherme Guaral



Coordenador do Curso de História



UVA - Cabo Frio

Artigos Completos VII Congresso de História da Região dos Lagos

III


Nem melhor, nem pior, apenas uma Escola diferente: Os Acadêmicos do Salgueiro e as transformações estéticas e ideológicas na cultura brasileira (1959-1972)

Guilherme José Motta Faria[1]
O início dos anos sessenta, na história do carnaval carioca representou a chegada de uma fase de transformações ideológicas e estéticas. A ousadia coube a GRES Acadêmicos do Salgueiro, que sintetizou suas ambições artísticas e culturais na frase do seu presidente, Nelson Andrade “Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”.
Ressaltando personagens em sua maioria negros e mulatos, o Salgueiro trouxe para a linguagem visual e discursiva dos desfiles toda uma gama de representações que exaltavam a origem africana desses personagens e a própria discussão sobre a participação dos negros na formação cultural do Brasil.
A seqüência de desfiles entre 1959 e 1971 revelou esse fulgor de criatividade, de descobertas e de militância tendo o negro e suas peculiaridade, suas mazelas e suas alegrias amplificadas nos sambas e nos desfiles realizados pela escola. Foi a partir do GRES Salgueiro que a temática negra entrou no rol dos enredos possíveis.
Palavras Chave: GRES Salgueiro, transformações estéticas, ideologia, africanidade, cultura brasileira e historiografia.

Arte e Política na Academia do samba
Os desfiles das Escolas de Samba foram se tornando com o passar do tempo, espetáculos grandiosos, que despertaram e continuam a despertar o interesse de grande parte da população brasileira. Fatos curiosos, pitorescos, personagens e o contexto histórico embasando cada enredo, nos permitem passar em “revista” os acontecimentos importantes, as idéias, tendências artísticas e comportamentais que influenciaram e continuam a influenciar nosso panorama cultural.
A história das escolas de samba pode ser trabalhada como chave de compreensão do todo histórico. Os aportes em seus enredos, o trabalho das comunidades, a repercussão dos desfiles, enfim a sua existência e a relação que se estabelece com os poderes públicos (municipal, estadual e federal) nos possibilitam construir a História política contemporânea do país nesse entrelaçar de informações e sensações, onde a plasticidade e, sobretudo o ritmo sincopado do samba-enredo serve de fonte de inspiração para a narrativa histórica e fonte de pesquisa, pois suas letras, a sinopse dos enredos, a materialização das idéias em alegorias e fantasias não devem ser descartados como possibilidade de material a ser analisado.
Revisitar um momento riquíssimo de acontecimentos e debates, onde o ambiente cultural estava extremamente revitalizado é um grande desafio intelectual que visa acrescentar novas abordagens à historiografia sobre os anos 1960 em nosso país. Período intenso da vida política brasileira, onde nos mais diversos segmentos culturais os artistas eram convidados a dar suas contribuições estéticas e ideológicas na formação social do povo brasileiro, externalizando anseios e problematizações.
Sendo assim, a nossa pesquisa, se valendo da relação constante e dialética entre os conceitos de Cultura, Estado, nacionalismo, ideologia e arte engajada, a luz das práticas culturais que eram vivenciadas naquele momento, me permite juntar as peças e reconstruir a história Política e Social do Brasil que nos é contemporânea, a partir do universo das escolas de samba.
Mediados pela inter-relação de um Estado em processo de transformação radical, desde os ventos finais do desenvolvimentismo de JK, da euforia e decepção do fenômeno Jânio, das incertezas do Governo de João Goulart ao desfecho do Golpe militar com seus generais-presidente, os anos 1960 encarnaram de maneira quase holística seu sentido mais profundo da busca de uma nova forma de fazer política tendo a cultura como campo fecundo.
Dessa forma, durante o período estudado ocorreu extensa produção de elementos e bens culturais, que com o imbricamento das questões políticas gerou vários desdobramentos nas nossas práticas culturais, ora de contestação, ora de enaltecimento de ideologias que se contrapunham no cotidiano. Era preciso ter opinião e as artes, de maneira geral deveriam abrir caminhos para essas escolhas e para a formação constante de quadros políticos.
Assim sendo, a partir da análise, tendo o GRES Acadêmicos do Salgueiro como objeto central pode estabelecer a trajetória de uma agremiação, que conectada ao momento vivido se mostrou também engajada. Revolucionou a ideologia e a estética dos enredos abrindo novo campo de discussões acerca da História brasileira e sua interpretação. Discutiram a causa racial, a valorização da ascendência africana e as reivindicações feministas ressaltando mulheres marcantes e até aquele momento esquecidas pela nossa cultura, através de sambas, fantasias e alegorias em desfiles marcantes e amplamente registrados na imprensa carioca.
Com efeito, essas práticas culturais, citadas acima, foram se constituindo em marcas incorporadas ao imaginário e ao cotidiano das demais escolas de samba, da problematização de uma consciência crítica na historiografia, na constituição dos pólos de discussão de gênero, classe e cor que são visíveis até os dias atuais, influenciando nossa maneira de compreender o mundo que nos cerca.
No contexto cultural dos anos 60, o ambiente do carnaval carioca vivia uma constante ação de circularidade cultural, onde se buscava representar na avenida os símbolos, oriundos de valores que vinham sendo “pregados” pelo Estado. Por outro lado o GRES Salgueiro demonstra um desejo de ampliar o leque de discussões e questionar a própria ascensão social por parte dos sambistas e sua tentativa freqüente de demarcar seu espaço numa atitude concreta, pautada no intuito de se afirmar como agentes culturais e, sobretudo, como cidadãos na sociedade brasileira.
O conceito de circularidade cultural[2] demonstra como as idéias e os valores podem ser absorvidos e se metamorfosear, num ciclo sempre renovável, mantendo as características dos grupos sociais. Partilhar manifestações, fundadoras de uma cultura geral, que ganha conotações diversas, não significa abrir mão de suas especificidades, nem mesmo de uma igualdade social. É, portanto, possível conviver com as diferenças e usufruir as manifestações culturais que são engendradas em outras esferas e espaços sociais, possibilitando, para cada classe, uma gama de práticas diferenciadas, resultando em representações próprias para cada uma delas.
Tendo como objeto de pesquisa a cultura produzida por um dos segmentos das classes populares, a análise se encaminha para ter como fundamentos teóricos os modelos trabalhados pelos historiadores Carlo Ginzburg e Mikail Bakthin[3], compreendendo que as esferas sociais produzem cultura, não dissociadas do todo e sim interagindo, captando, apropriando-se de todos os elementos e estabelecendo com peculiaridades a sua visão de mundo.
Nem melhor, nem pior, apenas uma Escola diferente: Os Acadêmicos do Salgueiro e as transformações estéticas e ideológicas na cultura brasileira (1959-1971)

Na história do carnaval carioca, após a fase de estruturação nos anos 1930/40, houve a da consolidação entre o final dos anos 1940 início dos anos sessenta. A terceira fase foi a da transformação ideológica e estética percebida pela abertura que se verificou com novos temas servindo de enredo. A aparente ousadia coube a uma jovem escola, fundada em 1953, a partir de uma fusão entre três escolas de pequeno porte do Morro do Salgueiro, localizado no bairro da Tijuca[4].
A história dos desfiles e do próprio carnaval carioca ganharia um capítulo especial com as apresentações dos Acadêmicos do Salgueiro, que sintetizaram suas ambições estéticas e ideológicas na famosa frase de um de seus presidentes, Nelson Andrade, e que acabou se tornando a marca registrada da história da agremiação: Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente.
De fato essa diferença foi uma das características fundamentais da escola de samba tijucana, sobretudo quando ela se tornou a plataforma de lançamento de histórias pouco conhecidas pelo público em geral. Ressaltando personagens em sua maioria negros e mulatos, o Salgueiro acrescentou a linguagem visual e discursiva, pertinente aos desfiles, toda uma gama de representações que exaltavam a origem africana desses personagens e da ancestralidade que a própria festa carnavalesca, exacerbada nas escolas de samba representava.
Dessa forma, o Salgueiro trouxe para o centro das discussões as temáticas etnográficas, raciais e o debate em si sobre a participação dos negros na formação sócio-cultural do Brasil. A seqüência de desfiles entre 1959 e 1971 revela esse fulgor de criatividade, de descobertas e de militância, tendo o negro e suas peculiaridades, suas mazelas e suas alegrias amplificadas nos sambas e nos desfiles realizados pela escola.
Foi a partir do Salgueiro que a temática negra entrou no rol dos enredos possíveis. Aparentemente essa constatação pode parecer um grande paradoxo, pois essa manifestação carnavalesca nitidamente teve seu nascedouro nos redutos dos bairros do subúrbio e dos morros cariocas, tendo predominantemente como fundadores e primeiros agentes de legitimação, indivíduos negros e mulatos.
A origem do samba, ao longo da trajetória inicial das escolas de samba não era retratada diretamente e quando essa gênese era retratada chegaram a utilizar uma versão que dizia que o ritmo havia nascido entre os índios[5]. Atraindo para si profissionais ligados a Escola Nacional de Belas Artes, o Salgueiro inaugurou uma parceria diferente no mundo das escolas de samba, mesclando uma visão baseada na formação clássica e acadêmica com o saber e as produções tidas como da cultura popular. No mundo carnavalesco, entretanto, essa aproximação não era uma total novidade, pois os ranchos e as grandes sociedades tiveram em seus momentos de maior expressão essa forma associativa de produção de enredos, alegorias e fantasias[6].
Entretanto, esse novo momento de aproximação, permitiu que na esfera das escolas de samba, manifestação que nos anos 60 estava se tornando hegemônica no carnaval carioca, acontecesse a explosão do fenômeno da temática negra, sua carga de problematização e conseqüentemente a busca da auto-afirmação dentro do contexto cultural brasileiro. Fernando Pamplona, professor da Escola Nacional de Belas Artes foi a principal figura que sintetizou esse encontro entre esferas de produção cultural, propondo os temas e fazendo uma “catequese” junto aos moradores para que aceitassem vestir fantasias de tribos africanas em substituição das tradicionais vestimentas de nobres com suas perucas, sapatos e casacas.
Pamplona confessa que o início dessa trajetória foi turbulento, mas os resultados e, sobretudo a repercussão que os desfiles do Salgueiro foram atingindo permitiram que a comunidade do morro tijucano e de simpatizantes da classe média da zona sul carioca se achegassem cada vez mais à agremiação.
Interessante perceber que essa parceria começou com Pamplona na espinhosa missão de ser jurado no desfile em 1959, onde se encantou com a apresentação do Salgueiro que havia trazido para organizar seu carnaval dois artistas plásticos, o casal Dirceu e Marie Louise Nery.O recorte histórico que escolhi para esse Projeto de pesquisa se inicia com essa parceria e conseqüente desfile. Com o enredo Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, tratando da obra do pintor Jean Baptiste Debret em sua estadia no Brasil e especificamente na cidade do Rio de Janeiro. O artista retratou o cotidiano e as diversas manifestações culturais tendo os negros em sua condição de escravos como protagonistas. A representação das cenas retratadas por Debret, formando quadros vivos na avenida impressionou o jurado Pamplona. O desfile como um todo foi de uma plasticidade intensa, onde predominaram os componentes negros da comunidade do morro do Salgueiro[7].Selada a parceria, o primeiro enredo proposto por Pamplona foi paradigmático em relação ao trabalho que ele desenvolveu na escola, escolhendo exaltar a figura de Zumbi dos Palmares com o enredo Quilombo dos Palmares. Para o desfile de 1960, o artista convidou seu colega do departamento de cenografia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Arlindo Rodrigues para auxiliá-lo, configurando uma parceria que renderia muitos frutos para o Salgueiro, para o carnaval carioca e para a cultura brasileira[8].Em 1961 com Vida e obra de Aleijadinho, em 1962 com O Descobrimento do Brasil, em 1963 com Xica da Silva e com Chico Rei no carnaval de 1964 o Salgueiro revolucionou os desfiles das escolas de samba trazendo para o centro do evento a cultura brasileira em estado bruto com personagens quase desconhecidos do grande público, mas que encarnava de forma profunda a brasilidade de negros e mulatos.Contando essas histórias de vida onde a superação era uma das maiores virtudes, a ação afirmativa do Salgueiro deu início a um processo de oxigenação das idéias no carnaval através do fenômeno da circularidade cultural que a partir dos seus desfiles fez circular por diversas camadas sociais esses personagens, suas idéias e práticas culturais. Isso se verifica, pois não só o público que assistia aos desfiles e as comunidades que acompanhavam os ensaios se apropriaram destes temas. Os meios de comunicação de massas, o rádio, as revistas de grande circulação e as iniciantes emissoras de tv passaram a se interessar pelo espetáculo das escolas de samba e sua cobertura possibilitou umas abrangências bastante ampliadas das suas ações e temáticas.Se no trabalho anterior sobre a GRES[9] Portela[10] pude constatar que as escolas se apropriavam dos discursos e representações sociais produzidas pelo Estado, pela Imprensa e através do fenômeno da circularidade cultural transformavam essas informações e conceitos em sambas, alegorias e fantasias, com o Salgueiro o processo se inverteu. A irradiação ideológica e estética que trouxe a cena novos personagens, a partir de novas interpretações da historiografia oficial, se tornaram visíveis e reluzentes em diversos segmentos culturais no país. No ambiente teatral, nos filmes, na escultura, na moda, na música popular, na literatura, enfim, em diversos campos da cultura os temas abordados pelo Salgueiro foram sendo apropriados e ampliados.O maior exemplo da afirmativa acima foi a montagem do espetáculo Arena Conta Zumbi em 1965 pelo grupo Teatro de Arena com textos de Gianfrancesco Guarnieri, direção de Augusto Boal e músicas de Edu Lobo. A montagem estreou cinco anos após o desfile do Salgueiro e mesmo que as pesquisas tenham caminhado em direções opostas é inegável que a proposta temática da escola da Tijuca tenha inspirado as letras e melodias do compositor carioca Edu Lobo. O filme Ganga Zumba de Cacá Diegues de 1963, portanto anterior ao espetáculo teatral foi outra obra de arte que sofreu o impacto da pesquisa temática do desfile do Salgueiro.Outro fato relevante é que as próprias escolas de samba, a partir da abertura temática do Salgueiro passaram a tratar também de temas relacionados às questões das condições sociais dos negros, desde a ancestralidade africana, o tempo da escravidão até o advento do samba e a proliferação dos subúrbios e favelas na cidade do Rio de Janeiro. Os enredos de 1965, História do Carnaval Carioca, uma homenagem a pesquisadora Eneida de Moraes, abriu outra série de abordagens que colocavam a cidade e o carnaval carioca como personagens principais da trama escolhida. Cada vez mais assumindo nesta manifestação todos os traços da africanidade, tanto na questão rítmica quanto no gingado corporal que ia se inserindo ao manancial melódico que o samba-enredo ia estabelecendo.Os amores célebres do Brasil e Histórias da Liberdade no Brasil, respectivamente os enredos de 1966 e 1967 novamente traziam a cena abordagens críticas da história do Brasil. Se a primeira estruturava sua narrativa no lado pitoresco dos amores, nem sempre oficiais como o do Imperador D. Pedro I e a Marquesa de Santos o segundo enredo citado trazia em seu bojo uma mensagem contra a opressão que se vivia naquele momento. Várias vezes os ensaios foram interrompidos com corte da energia elétrica e a desconfiança da presença de homens estranhos na comunidade, provavelmente policiais pertencentes ao DOPS que acompanhavam os ensaios para apontar qualquer tipo de conotação política na preparação do carnaval da escola.Era de fato, uma demonstração de coragem por parte da agremiação, escolher o tema liberdade num momento crítico da nossa história política recente, onde o aparato militar montou um rígido esquema de repressão aos opositores ao regime, identificados, ou melhor, genericamente chamados de comunistas, procurando fechar todos os meios de comunicação para não informarem sobre as arbitrariedades cometidas pelos militares no poder. O que chama nossa atenção é o fato de perceber o pioneirismo do Salgueiro permitindo pela via carnavalesca oferecer uma abordagem nova, ácida e mais próxima da humanização dos personagens históricos, sobretudo, os de origem popular, numa nova forma de contar a história brasileira.Em 1968 com Dona Beija – a Feiticeira de Araxá, a agremiação novamente marca sua trajetória de originalidade destacando uma personagem também desconhecida do grande público. Se Ana Jacinta não se inseria no rol dos personagens negros, uma marca já consolidada naquele momento pela escola, a sua menção pode ser incluída no rol das personalidades femininas exaltadas pela agremiação.Com efeito, tanto em 1963, com Xica da Silva, quanto em 1965 numa homenagem a Eneida ou em 1966 com os amores célebres dando bastante ênfase e espaço para as figuras femininas dos casais célebres, estava se tornando outra tradição do Salgueiro dar destaque as mulheres que encarnavam em si o ideal de liberdade e de autonomia. Podia-se dizer que essas escolhas temáticas eram de certa forma, uma adesão da agremiação ao movimento feminista que tomava corpo, com grande intensidade em todo o mundo.No ano seguinte o Salgueiro aparentemente faria uma “involução”, pois, o enredo escolhido Bahia de Todos os Deuses permitiria a escola fazer uma homenagem a um dos estados brasileiros mais representados nos desfiles da nossa festa carnavalesca. Entretanto, por conta dos maus resultados obtidos pelas agremiações que escolhiam o tema, geraram a crença que essa opção daria azar. Mesmo sendo forte a superstição, o Salgueiro conseguiu o contrário, pois, a escola se tornou campeã exaltando a Bahia. O fato é que a abordagem da agremiação era bastante original transcendendo as representações da cultura e do povo da Bahia e investindo também nas representações das divindades presentes no candomblé. Aparentemente por certo pudor ou temor de ir contra a estética estabelecida na festa que mesmo sendo pagã revelava os traços de uma cultura católica, essas imagens do culto religioso sincrético realizado na Bahia e apropriado pelos grupos a princípio negros que de lá partiram, era pela primeira vez utilizada na festa do Carnaval. Essa coragem de mesclar as igrejas católicas e os orixás do candomblé num desfile de escolas de samba e ganhar o título quebraram essa idéia pré-concebida da mandinga ou azar e passaram a ser recorrentes nos anos seguintes pelas demais agremiações.A cidade do Rio de Janeiro foi tema do enredo de 1970, onde também o carnaval em seus primórdios ganhava destaque. Com Praça Onze, Carioca da Gema o Salgueiro fazia uma dupla homenagem, tanto para a cidade quanto para as escolas de samba. Pela primeira vez o reduto da Tia Ciata era cantado em verso e prosa oferecendo ao público e aos sambistas em geral uma versão do nascedouro do samba e das agremiações. O Salgueiro, desta forma criava uma genealogia para as escolas e para o próprio ritmo do samba estimulado pela turma do Estácio de Sá, liderados por Ismael Silva, Bide e outros sambistas que criaram a sincopa característica das escolas de samba. Fechando o período em destaque neste projeto de pesquisa, temos o enredo da escola no carnaval de 1971, Festa para um Rei Negro. É interessante notar que esse desfile fecha um ciclo de propostas temáticas que se tornariam razoavelmente recorrentes na história das escolas de samba. Partindo de uma narrativa que parecia gravitar entre o real e o ficcional a história contada era do menino rei que recebia a visita de uma corte especial vinda diretamente da África abriu caminho para alguns outros enredos que transitavam nessa esfera discursiva.Dessa forma, a escola coroou seus personagens e a sua comunidade por aceitar o desafio e comprar a briga estética e ideológica proposta pelos artistas que estavam criando os desfiles da agremiação. Agora os trajes africanos que foram utilizados eram em sua maioria trajes de uma nobreza africana. A auto-estima e a ação afirmativa geravam o desejo da comunidade do morro do Salgueiro de se exibir com as fantasias afros, numa linhagem da nobreza do continente africano.Essa nova postura foi conseguida ao longo de dez anos, após muitas conversas, alguns títulos e dos desfiles sempre marcantes do Salgueiro na década de 1960. Nessa altura, já participavam do barracão da escola, junto a Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, os artistas Maria Augusta, Joãozinho Trinta, Rosa Magalhães, Laíla, Renato Lage e outros que seriam os principais carnavalescos nos anos seguintes.De fato, a ousadia estética e ideológica proposta pelo Salgueiro geraram frutos e paulatinamente as demais agremiações foram se apropriando das personagens, da esfera simbólica, das representações sociais e artísticas que a escola de samba da zona norte da cidade trouxe para a avenida dos desfiles. O carnaval, naquele momento passava a ser sinônimo de Escola de Samba e esse conceito que já possuía três ícones: Portela, Mangueira e Império Serrano completavam seu panteon com a mais ousada das quatro: a GRES Acadêmicos do Salgueiro.

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[1] Mestre em História Política pela UERJ – RJ e Doutorando em História pela UFF.
[2] Conceito trabalhado por Carlo Ginzburg, O queijo e os vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Cia das Letras, 1987. Também encontramos em Rachel Soihet, A subversão pelo riso: o carnaval carioca da Belle Époque ao tempo de Vargas. Rio de Janeiro: FGV, 1998.
[3] Mikahil Bakhtin, A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento; o contexto de François Rabelais,São Paulo: Hucitec, UNB, 1987.
[4] As escolas de samba eram as pequenas Unidos do Salgueiro, Depois Eu digo e Azul e Branco.
[5] Esse foi o caso da Portela em 1942 com a Vida do Samba in Dulce Tupy, Carnavais de Guerra, Rio de Janeiro: ASB, 1985, p. 102.
[6] Ver Renata Sá Gonçalves, Os ranchos pedem passagem. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal das Culturas C / CDIC, 2003.

[7] Sergio Cabral, As escolas de samba do Rio de Janeiro, 2.ed., Rio de Janeiro: Lumiar, 2004, p.162.
[8] Haroldo Costa, Salgueiro Academia do Samba, Rio de Janeiro: Record, 1984, p.92.
[9] Essa sigla designa o título que todas as agremiações utilizam antes de seu nome específico e que significa Grêmio Recreativo Escola de Samba.
[10] Guilherme José Motta Faria, O Estado Novo da Portela:circularidade cultural e representações sociais no Governo Vargas, dissertação de mestrado – UERJ, 2008.

Artigos Completos do VII Congresso de História da Região dos Lagos

II
UM MODELO COLONIAL DE CONVIVÊNCIA

Ângela Maria Maia*


Já desde 1583/1587 quando o Padre Fernão Cardim e Gabriel Soares de Sousa escreveram suas narrativas, as capitanias do Nordeste eram o verdadeiro eixo econômico da América Portuguesa. Existiam outros centros em crescimento como o Rio de Janeiro, São Vicente e Piratininga, mas a sua importância era muito mais estratégica; a vida econômica da Colônia pulsava mesmo animada pelo caldo grosso que escorria das moendas, pelo ruído das caixas de açúcar que embarcavam para a Europa e, essa produção estava centrada nas capitanias da Bahia, Pernambuco e suas áreas próximas.
Nessa região eram intensos os contatos com a Metrópole e também entre os próprios colonos. A população apresentava-se fortemente miscigenada, pois as próprias condições do cotidiano tornavam-se propícias a essa miscigenação. A falta de mulheres brancas, já notada pelas autoridades nos primeiros tempos, se não era mais tão premente, ainda continuava existindo, explicando em boa parte o grande número de uniões dos colonizadores com o gentio da terra e ligações com negros escravos. Nessa população colonial era grande o número de elementos cristãos novos.
Para esses indivíduos, descendentes dos judeus convertidos à força em 1497, estigmatizados em Portugal por uma “marca” muito mais legal do que gene tica ou religiosa, o mundo colonial que se abriu a partir do final do Século XV, representou uma área de afastamento físico das pressões metropolitanas aliada à possibilidade de crescimento econômico.
O Brasil, principalmente a partir da época das Capitanias Hereditárias, abriu aos cristãos novos uma oportunidade maior de refúgio por ser uma área onde a colonização se iniciava e onde, em nome das necessidades dessa colonização, os olhos das autoridades portuguesas se fechavam a muitas coisas.
O desenvolvimento da agroindústria do açúcar que havia sido iniciada desde 1532 com os primeiros engenhos criados por Martim Afonso de Sousa em São Vicente, oferecia grandes possibilidades de enriquecimento para quem se deslocasse para a nova colônia. E também a isso os cristãos novos portugueses não podiam ficar indiferentes.
Para eles a situação em Portugal poderia no mínimo ser classificada como “tensa” . Apesar das medidas contemporizadoras de D. Manoel após a Conversão Forçada em 1497, os cristãos novos passaram a formar um grupo “diferente” no seio da população portuguesa como antes já haviam sido os judeus. Se estes eram diferentes por seus hábitos e crenças religiosas, os cristãos novos o eram porque existia agora sobre eles a suspeita, sempre presente nas leis seletivas e nas estruturas mentais da população, de sua apostasia ou retorno às antigas convicções religiosas consideradas heréticas.
A marca da suspeita era companheira do cristão novo mesmo que este não estivesse mais ligado à velha lei e fosse, mesmo em seu coração, verdadeiramente cristão. Por isso era interessante para ele uma região nova, relativamente longe de uma ação imediata do Santo Ofício e que ao mesmo tempo oferecesse boas oportunidades econômicas. Num lugar assim, os parâmetros seletivos ou excludentes da legislação feita para modelos portugueses, mesmo sendo obrigatórios, não poderiam funcionar do mesmo modo nem com a mesma rigidez.
No caso do Brasil, as capitanias dessa área garantiam refúgio a toda uma população que estava longe de ser religiosamente homogênea. Sendo a Colônia uma área nova e em desenvolvimento, o que importava primeiramente eram o trabalho e o esforço, sendo também mais ampla a possibilidade de participação dos grupos médios e populares na organização da vida colonial, desde que as classes privilegiadas eram representadas nela por pequenos contingentes ligados à ordem metropolitana ou enviados por ela.
Dos cristãos novos que procuraram as terras portuguesas da América, alguns eram convictamente conversos à fé cristã, embora outros permanecessem ainda secretamente judeus, existindo entre eles até mesmo alguns penitenciados pela Inquisição.
A identificação entre cristãos novos e criptojudeus é muito comum; bem como o aspecto da existência de um criptojudaísmo dominante entre os cristãos novos da sociedade colonial têm sido privilegiados na maioria das obras que aborda a presença desse grupo no Brasil. Colocando ambos os problemas em seus limites plausíveis, consideramos que de qualquer forma o ponto primordial a levar em consideração é a grande parcela de elementos cristãos novos que existia na população extremamente miscigenada da América colonial portuguesa. Nessa população, eles marcaram presença em todos os níveis sociais.
Observando as denúncias e confissões apresentadas à Mesa Inquisitorial entre 1591 a 1595 vemos aparecer cristãos novos senhores de engenho como Diogo Lopes Ilhoa, Bento Dias Santiago, João Nunes, Duarte de Sá,Heitor Antunes ou Tristão Ribeiro; mercadores como Diogo Roiz, João Bautista, Jorge Dias de Paz, Simão Mendes, Cristóvão Luis, Manoel Lopes Home3m, Thomas Nunes;mercadores de negros como Bastião Pireira, Fernão de Sousa, Manoel Roiz Villareal; ou mercadores de loja como Álvaro Sanchez,; médicos como Mestre Afonso Mendes, João Vaz Serrão, Jorge Fernandes, Pero Anriques, Fernão Soeiro e Anrique Nunes;lavradores como André Dias,Duarte Nunes,Francisco Antunes e Gaspar Gonçalves; alfaiates como Thomas Lopes, Fernão Gomes,Antonio Mendes e Balthazar de Barros; criados como Domingos Ribeiro, Antonio Gonçalves Rolete e Gaspar Coelho; feitores como Ambrósio Fernandes Brandão, Anrique Roiz, Simão Franco e Ruy Teixeira; trabalhadores de engenho como Gaspar Roiz e Luis Mendes; professores ou “mestres de moços” como Bento Teixeira e seu irmão Fernão Rodrigues.; costureiras como Maria Lopes ,esposa do cirurgião Afonso Mendes ou mestras de costura como Gracia Fernandes, Branca Dias e suas filhas Felipa de Paz e Inês Fernandes; confeiteiros como Diogo Lopes Ramos e Pero Cardoso ou funcionários como Domingos Nunes, João Serrão, Francisco Lopes da Rosa e Paulo D´Abreu; carcereiros como Braz Fernandes e ourives de ouro como Rui Gomes, ou de prata como Nuno Franco; boticários como Gaspar Rodrigues e Luis Antuners ou pedreiros como Balthasar da Fonseca; ferreiros como Manoel Roiz, oleiros como Mateus Franco, carpinteiros como Luis de Oliveira, torneiros como Manoel Antonio ,cirgueiros como Frrancisco Luis, vendeiras como Isabel Martins , donas de pensão com o Clara Fernandes e até prostitutas como Ana Franca. Havia cristãos novos em cargos da “governança” como era o caso dos senhores de engenho Duarte de Sá e Cristóvão Paes d´Altero e até clérigos como Gaspar Soares, Manoel Dias e Manoel Afonso. O próprio licenciado Diogo do Couto, ouvidor da Vara Eclesiástica de Olinda, confessou não saber ao certo se era cr5istão velho ou novo e sobre ele pesava a suspeita de, no exercício de seu cargo, ser favorável aos cristãos novos por serem seus iguais.
Existe então, uma profunda inserção dos cristãos novos no contexto social e na vida cotidiana das populações da região. São várias as referências a elementos cristãos novos em funções muitíssimo comuns no dia a dia da colônia. Neste caso estão, por exemplo, as menções da documentação a mercadores de escravos.
Gonçalves Salvador em seus estudos demonstrou que o tráfico negreiro em Portugal era em grande parte controlado por cristãos novos. Sendo a América portuguesa uma área que estava se desenvolvendo em base do trabalho escravo do africano, podemos imaginar a importância dessa atividade para o desenvolvimento econômico da região baseado na agroindústria açucareira. E a documentação mostra em vários momentos a presença de cristãos novos profundamente envolvidos com o comércio de negros.
Fernão de Sousa, genro de Branca Dias, é citado como tendo vindo de Angola com escravos. Bastião Pireira também é dito como vindo de Angola “com peças”; e Manoel Roiz Villareal viera para Olinda trazendo escravos, mas no momento estava no Porto.
Além do mais, devemos levar em conta que a menção do ofício de “mercador” também compreendia o comerciante que fazia negócios com o Reino ou o Exterior e incluía normalmente em suas mercadorias as “peças” de Angola ou da Guiné. Se observarmos o número de mercadores indicados na documentação e que não apresentam a ressalva que seu comércio era “de loja”, podemos imaginar o volume do comércio maior, incluindo ordinária ou extraordinariamente negros escravos, concentrado nessa região e indiscutivelmente nas mãos de negociantes cristãos novos; o que nos permite afirmar que neste setor prioritário para o desenvolvimento do cotidiano econômico da colônia, sua presença era um fato corriqueiro e aceito com toda a naturalidade.
A criação de um modelo muito próprio de coexistência entre cristãos novos e cristãos velhos na colônia é um fato muito claro desde que compreendamos a formação e os mecanismos de sobrevivência dessa sociedade surgida em condições muito especiais. A vida numa área colonial como a América portuguesa exigia formas de cooperação entre os habitantes num grau desconhecido na Metrópole. Momentos havia em que a vida de cada um dependia de seus vizinhos. As primeiras povoações eram núcleos mais ou menos fortificados mas sujeitos a inúmeros problemas e perigos.
Frei Vicente do Salvador refere-se à criação e fortificação em 1535 por Francisco Pereira Coutinho de um núcleo na entrada da baía de Todos os Santos que depois de alguns anos sofreu ataques de índios, tendo o donatário que fugir para Ilhéus. Neste sítio, anos depois, Tomé de Sousa desembarcou e fundou a cidade de Salvador. Também a vila de Igaraçu na capitania de Pernambuco pode ser citada como exemplo dessas vicissitudes, pois logo depois de sua criação sofreu um grande ataque e cerco dos potiguaras sendo socorrida e salva da fome pelos habitantes da ilha de Itamaracá. Também Olinda, nos seus primeiros tempos, sofreu vários ataques de índios.
Mas a necessidade de cooperação e a dependência entre os indivíduos na colônia não aconteciam apenas em situações que embora não muito raras, podem ser consideradas “de exceção”, como esses ataques de índios ou ataques de piratas às vilas do litoral. Também no dia a dia, quando somente a divisão de trabalho e a colaboração mútua poderiam levar adiante a tarefa a que todos se propunham de construir um lugar para viver e sobreviver numa nova terra ainda meio desconhecida e muito distante de seu país de origem. A vida nesses primeiros centros urbanos aproximava os colonos entre si. Nessa conduta coletiva, diante das necessidades do dia a dia, afastaram-se para um segundo plano os preconceitos entre cristãos velhos e cristãos novos, estabelecendo-se uma maneira de viver colonial mais integrada e cooperativa.
Nas entrelinhas da documentação, mesmo pela ausência de referências a lutas ou perseguições religiosas entre os colonos, aparece a realidade de uma convivência com tensões normais, mas sem choques. Isso não exclui a possível sobrevivência do preconceito estabelecido tanto na legislação vigente quanto na estrutura mental do colono cristão velho. Encontramos vestígio dele em casos como o de uma amiga de Ana Tristão no Rio de Janeiro, que se recusou a casar com um certo Luis Gomes porque ele era cristão novo, permanecendo por isso solteira. Também na preocupação da cristã nova Lianor da Rosa em saber se seriam legítimos para a Lei Velha, os filhos de sua sobrinha com um cristão velho; ou na briga entre Fernão Pires, cristão novo, e sua sogra Caterina de Almeida, cristã velha, que o acusava de te-la expulsado de sua casa depois que ela insistiu para que ele se confessasse, além de manter a esposa de 12 anos de idade trancada em casa e afastada dela que era sua mãe,
E´ justamente a presença desse preconceito que torna mais interessante o modelo de coexistência colonial que, diante da necessidade maior de cooperação, o minimiza e reduz até quase desaparecer do cotidiano, a ponto de não ser mencionado pelos cronistas da época. Esse preconceito só ressurgiu e explodiu em tensões a partir da pressão do Santo Ofício exercida com a sua presença na Colônia.
Podemos então admitir que, apesar da presença de um preconceito latente, a convivência pacífica na Colônia foi forçada pela necessidade que teve a função de aproximar os grupos e aliviar possíveis atritos. Nos documentos surgem cenas do dia a dia em que o relacionamento se faz normalmente.
Gracia de Siqueira,cristã velha, disse que Fernão Gomes, alfaiate cristão novo, quando conversavam sobre “cozinhar gostoso”, lhe ensinou a forma como preparava a sua comida. Antão Martinez, cristão velho mercador, era vizinhos “tinha comunicação particular de comerem e beberem juntos” com Rodrigo D´Avila, moço solteiro e também mercador que ele acreditava ser cristão novo. Gaspar Duarte, cristão novo conversava naturalmente com seu vizinho Amador Gonçalves, carpinteiro cristão velho, sobre o destino da alma dos índios. Ainda além disso, Bento Teixeira e seu irmão Fernão Rodrigues , cristãos novos,eram professores, “mestres de moços”, sem distinção para a origem de seus alunos; e na mesma classe do Colégio da Companhia de Jesus na Bahia, conviviam estudantes de todas as origens religiosas e sociais como Fernão Garcia, cristão velho filho de um carpinteiro, Domingos Lopes, sobrinho do Arcediago da Sé, Martim Lopes, filho de um membro da governança, Simão Adrian, filho de um mercador flamengo e Manoel de Fará, cristão novo, filho de um senhor de engenho e que foi denunciado pelo primeiro de seus colegas citados, por não rezar, não ir à doutrina dos padres e usar roupa limpa aos sábados.
Os fatos demonstram inclusive que essa coexistência independe da presença de judaizantes no seio da sociedade, pois vemos elementos que foram denunciados e julgados na Visitação de 1591-1595 como notórios criptojudeus, relacionando-se antes, normalmente, nos quadros do cotidiano, com os cristãos velhos. A convivência era, portanto, ordinária e natural.
Eram cristãs velhas como Isabel Frasoa e Joana Fernandes as alunas da cristã nova Branca Dias, que conviveram com a mestra e suas filhas durante anos. Beatriz Luis era cristã velha, vizinha de Branca Dias e estava presente na hora da morte de Diogo Fernandes seu marido. Pedro Bastardo, que suspeitava ser cristão novo, esteve no sertão lado a lado com companheiros cristãos velhos e também com alguns deles viveu com o gentio da terra. Os cristãos velhos Agostinho de Freitas e Antonio Gonçalves jantavam normalmente com os cristãos novos Fernão Soares e Diogo Soares no engenho desses últimos. Também Adrião de Góis, cristão velho pedreiro, almoçava com o cristão novo Diogo Nunes em sua fazenda e com ele conversava sobre o pecado da carne. Maria de Faria, cristã velha, estava na casa da cristã nova Maria Alvarez e conversava normalmente com ela mesmo durante a Semana Santa. Também João da Guarda, cristão velho morador em Igaraçu, conversava com outros cristãos velhos Brás Correa Dantas e Estevão Ribeiro, bem como com o cristão novo Brás Fernandes sobre as bulas concedidas pelo Papa.
Na Bahia, Isabel de Oliveira, cristã velha, quando denunciou algumas cristãs novas, Lianor da Rosa, Maria Lopes e Caterina Mendes, disse que era comadre de Lianor e amiga de todas. Gaspar de Palma, cônego da Sé, ao denunciar em 1591 a cristã nova Maria Lopes, disse que ao ir à casa dela para conversar e encontrando a porta aberta,encontrou-a lendo um livro que escondeu ao vê-lo. Vemos nesse episódio que um cônego entrava naturalmente na casa de uma família cristã nova sem mesmo bater na porta e de forma tão íntima que chegou a surpreender a própria dona da casa. A mesma família surge em outro episódio como recebendo duas irmãs cristãs velhas, Caterina e Guiomar Fontes, durante a Semana Santa e ceando em companhia de Madalena Pimentel e sua mãe, também cristãs velhas.
Foi Diogo Lopes Ilhoa, cristão novo dono de engenho e muito denunciado em 1591-1593 , que acolheu em sua fazenda os sobreviventes da expedição de Gabriel Soares de Sousa. O mercador cristão novo João Bautista aparece freqüentando normalmente a casa do arcediago da Sé, chegando a pronunciar-se ali contra a Inquisição. E ainda a senhora Ana Roiz, cristã nova que seria presa e executada pelo Santo Ofício anos depois, convivia harmonicamente com seus contraparentes cristãos velhos, chegando a oferecer, por ocasião da Páscoa, o pão ázimo que fizera, para a irmã de seu genro. A cristã velha Isabel Serrão privava atal ponto da intimidade dos cristãos novos da família Antunes, que se refere a reuniões de amigas em sua casa e nas casas de Beatriz e Lianor Antunes. E ainda Margarida Pacheca, também cristã velha, se refere a uma visita que fez a Beatriz Antunes quando esta estava desgostosa por ter-se desentendido com o marido cristão velho Bastião de Faria. Como vemos a intimidade e a naturalidade nesse último episódio era muito grande para poder existir uma visita de amiga num momento com essas circunstâncias.
A integração dos cristãos novos nesse cotidiano colonial é tão natural que a própria documentação inquisitorial mostra momentos de contato íntimo e amigável entre eles e muitos membros da comunidade religiosa local. Além do já mencionado caso do mercador cristão novo João Bautista freqüentando a casa do arcediago da Sé da Bahia, vemos referências a um relacionamento diário e natural do padre cristão velho Francisco Pinto Doutel com a cristã nova Branca Dias quando ele se apresenta para denuncia-la e diz que falou-lhe muitas vezes na igreja, e em sua casa com “muitas e longas conversas”.
Na própria organização eclesiástica da Colônia, a presença integrada de cristãos novos aparece clara pelas posições que muitos deles ocupam.
Gaspar Soares era capelão de um engenho em Pernambuco; Manoel Dias , clérigo em Olinda. Diogo do Couto, não podia precisar sua origem mas era ouvidor da Vara eclesiástica de Olinda e Manoel Afonso, já falecido na época da Visitação, havia sido meio-cônego da Sé da Bahia.
Também, decorrente da necessidade de cooperação para a sobrevivência individual e social nas terras coloniais, a presença integrada dos cristãos novos em cargos vitais para a vida administrativa das capitanias, se faz notar com muita frequência. Em Pernambuco podemos identificar Duarte de Sá, o vereador mais velho de Olinda; Cristóvão Paes D´Altero, também da governança de Olinda; João da Rosa e Diogo Lopes da Rosa, tabeliães em Olinda; Brás Fernandes, meirinho da vila de Igaraçu e Paulo D´Abreu que era escrivão da alcaidaria de Igaraçu. Francisco Lopes da Rosa era tabelião público e judicial em Filipéia na Paraíba; e na Bahia, além de Phelipe de Guillem que foi provedor da Real Fazenda em Porto Seguro, surgem também Gaspar Curado como capitão de milícia, João Serrão que havia sido almotacel e Pedro Teixeira que era escrivão da almotaçaria.
Ainda dentro do modelo colonial de convivência, um aspecto a ser destacado e refletido é o dos casamentos mistos. O grande número de casamentos entre cristãos velhos e cristãos novos é indicativo, senão de uma integração, pelo menos de uma profunda aproximação resultante da necessidade que forçou uma aceitação natural.
Os casamentos, e ainda as uniões ilegais ou extraconjugais de caráter misto, surgem em todos os níveis sociais desde os mais abastados até os mais humildes. Assim, eles vão desde as uniões dos mais simples como a cristã nova estalajadeira Clara Fernandes com o carcereiro cristão velho Manoel Fernandes; Bartolomeu Garcez, cristão novo obreiro de alfaiate com Maria Gonçalves cristã velha mameluca, na Bahia; ou a de Isabel Martins, cristã nova vendedeira com um cristão velho degredado de nome Barroso em Pernambuco; até os casamentos dos grandes senhores como Garcia D´Avila, sertanista pioneiro da criação de gado na Colônia e senhor da Casa da Torre com a cristã nova Mécia Roiz denunciada várias vezes em 1591 diante do Visitador e cuja mãe era judaizante “de fama pública”.
Com exceção de duas uniões mistas sabidamente críticas e que foram desfeitas com violência, não temos notícias de choques conjugais entre cristãos velhos e cristãos novos . Os casamentos de Bento Teixeira e Salvador da Maia com cristãs velhas terminaram em tragédia pois os maridos mataram suas esposas por infidelidade; mas esse motivo nada tinha a ver com as condições de origem ou religião das vítimas.
Em contraponto a essas uniões infelizes, podemos apontar alguns casos em que uniões mistas eram publicamente sólidas e firmes. O primeiro deles desafiava até mesmo os padrões e limites morais da época. Era a ligação entre o cristão novo João Nunes e a cristã velha Francisca Ferreira, uma mulher casada. Para deixar livre o seu caminho, João Nunes enviou o marido traído para Portugal com uma missão. Quando ele retornou, o escândalo era tão público que o levou a iniciar um processo por adultério; mas João Nunes requereu e conseguiu a anulação do casamento de Francisca diante das autoridades eclesiásticas na Bahia, não aceitando negociar nada com o marido.
João Nunes era um homem poderoso, mercador e dono de engenho, para quem não deviam faltar oportunidades de casamento, compreendendo-se Assim até o interesse de Francisca Ferreira em manter a ligação; mas de qualquer modo o que fica claro é que a origem religiosa não afastou os dois parceiros sendo, ao contrário um fator possivelmente minimizado e relegado diante de outros interesses e realidades.
Outro exemplo de uniões mistas onde os fatores de origem ou religião não interferiram na firmeza da união familiar está na Bahia entre os membros da família Antunes.
Heitor Antunes, cristão novo, e sua esposa Ana Roiz, também cristã nova, chegaram ao Brasil em 1557 acompanhando o governador Geral Mem de Sá. Com eles vinham alguns de seus filhos; outros nasceram na Bahia. Foram ao todo sete: Isabel Antunes, Violante Antunes, Beatriz Antunes, Lianor Antunes, Jorge Antunes, Álvaro Lopes Antunes e Nuno Fernandes Antunes. Todos os filhos de Heitor Antunes e Ana Roiz se casaram com cristãos velhos. Violante Antunes casou-se com Diogo Vaz Escovar; Isabel Antunes com Antonio Alcoforado; Beatriz Antunes com Sebastião de Farias,Lianor Antunes com Henrique Moniz Telles; Jorge Antunes com Joana de Sá Betencourt e Álvaro Lopes Antunes com Isabel Ribeira. Entre todos esses cônjuges Sebastião de Farias e Henrique Moniz Telles eram pessoas de alta projeção na sociedade baiana naquele momento.
Também se casaram com cristãos velhos vários netos do casal de patriarcas, inclusive as netas que se envolveram com a Visitação de 1591, Custódia de Farias e Ana Alcoforado.
E´ interessante o caso do filho Nuno que tomava conta da mãe na época da Visitação. Ele manteve ligações profundas com outra família cristã nova de Salvador, a de Mestre Afonso Mendes e Maria Lopes; chegando a permanecer doente em sua casa. Nesse contato conheceu uma neta do casal e quis casar-se com ela, no que o impediram sua mãe, as irmãs e os cunhados, gerando com isso forte inimizade entre as famílias. A ligação com cristãos velhos era então interessante e defendida com empenho. Nuno permaneceu solteiro.
Contra a família Antunes foram apresentadas várias denúncias ao Visitador entre 1591 e 1593. O velho Heitor Antunes, já defunto na ocasião, foi acusado de dizer-se descendente dos Macabeus, de fazer “esnoga” em sua casa, possuindo uma “toura” e promovendo reuniões secretas de vários cristãos novos. Nuno, o jovem infeliz no amor,confessou ter lido livros proibidos e teve que entregar um deles à Mesa. Mas o grande volume de acusações se concentrou em Beatriz, Lianor e na velha senhora Ana Roiz, acusadas de práticas indicativas de judaísmo.
Diante dos indícios e das confissões das pessoas mais envolvidas, podemos considerar que a família Antunes era realmente centro de um ativo núcleo judaizante; e podemos também ponderar que em anos de convivência tão estreita não se fez sentir nenhuma pressão ou repressão da parte dos elementos cristãos velhos da família contra a crença ou as atitudes de seus parentes cristãos novos, mesmo judaizantes.
Sobre a expressão clara de uma atitude suspeita, apenas um pedido de cautela, quando, diante da recusa da velhinha Ana Roiz, doente, de aceitar um crucifixo, sua filha D. Beatriz lhe recomendou: “Mãe,não nos desonreis, que somos casadas com homens cristãos velhos e nobres.”
Mas essa cautela não evitou a carga de denúncias e as conseqüentes suspeitas do Visitador que recebeu ordens do Conselho Geral da Inquisição para prender a velha senhora. Realmente D. Ana foi presa a 23 de abril de 1593 e embarcada para o Reino a 2 de julho. De suas filhas, pelo menos temos certeza da prisão e interrogatório de D. Lianor em Lisboa. Sobre D. Beatriz há fortes indicações.
E´ fato notável e muito significativo, o esforço que fizeram os genros cristãos velhos de D. Ana para justifica-la, inocenta-la e livra-la da fogueira. Disseram que era muito velha, entrevada e caduca, impossibilitada de dar um testemunho coerente, e que as acusações contra ela só poderiam ter partido de inimigos da família. Seus esforços, porém, não foram bem sucedidos pois D. Ana morreu na prisão e foi queimada em efígie. Mas ainda num último momento ficou demonstrada a união da família; quando Henrique Moniz Telles mandou retirar da frente da igreja de seu engenho o retrato da sogra penitenciada, colocado ali por ordem do Santo Ofício.
Vemos em todos esses fatos uma família mista, com elementos certamente judaizantes, mas intimamente relacionada entre si. Testemunhamos os esforços de seus elementos cristãos velhos poderosos que empenharam seu prestígio, tentando usar o seu poder junto ás autoridades da Metrópole para defender seus parentes cristãos novos, arriscando a sua própria reputação e até ousando contrariar uma determinação do Santo Ofício para preservar a honra de sua estirpe.
Os próprios Sebastião de Farias e Henrique Moniz Telles na sua solicitação ao Santo Ofício em defesa de Ana Roiz, fizeram questão de apresentar os casamentos mistos da família como um ponto positivo que depunha em favor da acusada. Em nenhum momento a realidade desses casamentos foi ocultada ou disfarçada por vergonha; sendo, pelo contrário, ostentada com altivez e orgulho.
Devemos considerar , porém, que os casamentos mistos não significam necessàriamente o desaparecimento de todas as tensões entre cristãos velhos e cristãos novos na Colônia. Tensões sociais existem em quaisquer grupos que sejam distinguidos uns dos outras por uma legislação especial ou discriminatória; mas essas tensões tendem a diminuir, a serem minimizadas, quando existe, por outro lado, uma aproximação normal através da convivência cotidiana e por aí, a aceitação de parceiros conjugais em uniões legitimadas ou não.
E´ sempre bom recordar também que o casamento numa sociedade patriarcal é uma relação que aproxima não só os cônjuges, mas igualmente as famílias. Logo, leva em sua própria essência uma profunda carga de coexistência grupal. Assim, o número expressivo de uniões mistas entre cristãos velhos e cristãos novos nas Capitanias do Açúcar neste fim de século XVI, assume uma conotação indicativa de uma coexistência sócio/familiar que se fazia sem muitos choques, mesmo quando os elementos cristãos novos pertenciam à comunidade que era judaizante.
A existência dessa comunidade judaizante em boa parte reconhecida,em nada prejudicava o relacionamento entre seus membros e o resto da sociedade cristã. Muito pelo contrário, era esta existência real e quase pública que tornava a convivência tranqüila num modelo social novo em pleno vigor na Colônia.
Isso se prova ainda mais quando observamos e refletimos sobre comportamentos que retratam a naturalidade do dia a dia: visitas entre cristãos velhos e cristãos novos; o oferecimento do pão ázimo, a “matzá” judaica, feito por Ana Roiz à cristã velha Custódia de Faria num gesto que poderia no mínimo significar uma disposição amistosa; ou a brincadeira feita em Ilhéus pelo muito denunciado cristão novo Salvador da Maia que escreveu num retábulo quebrado de seu amigo cristão velho “esnoga de João Braz”. Em todos esses momentos presenciamos uma naturalidade tão grande entre as pessoas que permitia um gesto como o de D. Ana Roiz que em outras circunstâncias seria arriscado, ou ainda uma brincadeira que envolvia uma crítica irônica a objetos e valores religiosos mútuos.
Em Pernambuco, Branca Dias dava aulas de costura e abrigava em sua casa várias alunas cristãs velhas em convivência direta e normal tanto consigo quanto com suas filhas. Diogo Fernandes, seu marido, foi recomendado ao Rei de Portugal por Jerônimo de Albuquerque, e na hora da morte foi assistido por D. Brites de Albuquerque, sua irmã e viúva do donatário Duarte Coelho.
Na luta contra os corsários e invasores e na conquista do território aos nativos, momentos vitais para a preservação da obra da colonização, junto aos cristãos velhos atuaram também vários cristãos novos. Nos combates que desalojaram os franceses da Paraíba em 1585 participaram Ambrósio Fernandes Brandão e Fernão Soares com uma ação direta, além de João Nunes com empréstimos. Na conquista de Sergipe aos índios aimorés, participaram lutando lado a lado Diogo Lopes Ilhoa, senhor de engenho cristão novo e Sebastião de Farias, senhor de engenho cristão velho, genro do casal cristão novo Heitor Antunes e Ana Roiz.
Além de tudo isso, os cristãos novos também reconheciam que nessa terra, com a vivência pacífica ao lado dos cristãos velhos, havia imensas possibilidades de progresso e riqueza. Esse espírito e sentimento perpassa os Diálogos das Grandezas do Brasil escritos provavelmente em 1618 mas da autoria de Ambrósio Fernandes Brandão, cristão novo mercador, trabalhador no engenho de Bento Dias Santiago também cristão novo, ambos contemporâneos da 1ª Visitação.
Eram essa coexistência diária e essa conjugação de interesses que marcavam o novo modelo que consideramos existir na sociedade das Capitanias do Açúcar; um modelo social de convivência sem choques, sem perseguições ou perigo de massacres, onde o preconceito era minimizado diante de outros fatores que assim se tornavam social e individualmente muito mais importantes ; onde todos os cristãos novos tivessem o seu lugar no contexto da sociedade com as mesmas oportunidades de sucesso e participação que os cristãos velhos; em que ninguém e acima de tudo o judaizante, mesmo praticando mais ou menos publicamente os seus rituais, fosse por isso cerceado, humilhado, perseguido ou castigado, sendo naturalmente aceito em convivência tranqüila e total participação social.
Era esse modelo que achamos que começava a se desenvolver nas terras do Açúcar quando a Visitação inquisitorial de 1591 ali desembarcou. Cristãos novos e cristãos velhos já estavam fortemente unidos por laços de família e da própria convivência cotidiana. A Visitação remexeu as brasas que já estavam quase apagadas sob as cinzas. O equilíbrio social foi quebrado. O preconceito subiu à tona, acionado pelos mecanismos de pressão psicológica forçados pelo medo. E o tecido social fragmentou-se. A realidade geral unida dividiu-se em várias pequenas realidades individuais assustadas e solitárias.


* Mestre em História - UFF